
Este ano, o padre James Bhola Lengarin, Superior Geral dos missionários da Consolata, celebrará o Dia Mundial das Missões (DMM) em 18 de outubro, num lugar de profundo valor simbólico: a Etiópia, o país que São José Allamano, fundador do seu Instituto religioso, apontava como «um grande sonho missionário». «Celebrarei o centenário do Dia Mundial das Missões na Etiópia, juntamente com os nossos missionários e as comunidades locais», conta à Agência Fides.
Por Paolo Affatato *
Padre Lengarin estará no país por ocasião da visita canônica após a Consulta intercapitular, mas a sua presença assume um significado que vai além dos compromissos institucionais. «A Etiópia tem um valor especial», explica. «Allamano nunca conseguiu ir pessoalmente, mas desejava chegar ao povo etíope e dar continuidade à obra de evangelização iniciada pelo cardeal Guglielmo Massaia. Celebrar ali o centenário do DMM», afirma padre Lengarin, «será para nós uma oportunidade de agradecer pelo caminho percorrido, escutar a realidade atual e renovar o nosso compromisso com a missão, tendo em vista o futuro».

O padre Lengarin, missionário queniano de 55 anos, foi eleito Superior Geral do Instituto Missões da Consolata (IMC) em 12 de junho de 2023, durante o XIV Capítulo Geral. É o primeiro africano a dirigir o Instituto. Ao longo do seu percurso, desempenhou diversas responsabilidades na Itália e no Quênia, entre elas na Rádio Waumini, em Nairobi, e no Santuário da Consolata. Foi também administrador regional e, entre 2017 e 2023, Vice Superior Geral.
Em solo africano, precisamente num país há muito desejado por Allamano, o primeiro africano à frente da Consolata celebra o centenário do DMM em sintonia com a mensagem do Papa Leão XIV: «Um só em Cristo, unidos na missão». Lengarin considera esta comemoração «não como uma simples efeméride, mas como um convite à comunhão, à corresponsabilidade e a um novo impulso missionário».

Para o padre Lengarin, os cem anos do Dia Mundial das Missões refletem uma profunda transformação da consciência missionária da Igreja. «Passamos», observa, «de conceber a missão como um movimento de alguns países cristãos em direção a terras distantes para uma consciência mais profunda de que toda a Igreja é missionária e cada batizado é um discípulo missionário». O Concílio Vaticano II, o crescimento das Igrejas locais, o protagonismo dos leigos e o diálogo ecumênico e inter-religioso foram transformando a geografia da missão. «Hoje já não existem apenas países que enviam e países que recebem: todos dão e todos recebem». Por isso, o centenário «não é apenas memória, mas um apelo a inaugurar uma nova época missionária».
Também o significado da expressão ad gentes mudou, assinala. Já não se refere apenas a ir para outro continente ou a dirigir-se a povos não cristãos, mas a «sair de si mesmo, da própria cultura e das próprias seguranças, para encontrar povos, contextos e pessoas onde o Evangelho não é conhecido ou deixou de ser percebido como uma boa notícia». A distância, explica o Superior Geral da Consolata, pode ser geográfica, mas também «humana, cultural, religiosa ou existencial». Esta perspetiva mantém intacto o carisma do Instituto: dirigir-se aos lugares mais pobres, às pessoas mais vulneráveis, aos migrantes e àquelas realidades onde a presença da Igreja é mais frágil.
Daí nasce também uma nova compreensão das «periferias missionárias»: são «as zonas marcadas pelas guerras, pelas rotas migratórias e pelos campos de refugiados, os povos indígenas e as minorias esquecidas, as comunidades afetadas pelas crises ambientais, mas também as grandes cidades atravessadas pela solidão, pelas desigualdades e pela perda de sentido». A isso junta-se o «continente digital», onde muitos jovens «já não encontram uma linguagem eclesial que consigam compreender». Nestes lugares, observa Lengarin, mesmo quando não é possível anunciar explicitamente o Evangelho, «este é testemunhado através da presença humilde, respeitosa e fiel dos missionários».

A missão começa, portanto, pela escuta. «É preciso partir da escuta, partilhar a vida, servir sem discriminações e deixar-se evangelizar também pelas pessoas que encontramos», afirma. As obras de caridade, que acompanham a escuta na vida dos missionários, «não são uma estratégia para chegar ao anúncio nem um substituto deste: são uma manifestação do amor de Deus». Quando nasce a confiança e o outro pergunta pela «razão da nossa esperança», explica, «então é possível pronunciar com simplicidade e fé o nome de Jesus». O objetivo é criar «caminhos de consolação, justiça, paz e esperança».
Também é nesta perspetiva que se compreende o diálogo inter-religioso. Para Lengarin, «faz parte da missão, porque evangelizar não significa “conquistar”, mas dar testemunho de Cristo com respeito e verdade». «Dialogar não significa renunciar à própria identidade, mas vivê-la sem medo, reconhecendo as sementes do bem que o Espírito suscita nas pessoas e nas diferentes tradições religiosas», recorda.
No trabalho missionário dos religiosos da Consolata, este diálogo concretiza-se na colaboração pela paz, pela educação, pela assistência aos doentes, pela defesa da dignidade humana e pela amizade com pessoas de outras religiões. «O diálogo da vida», sublinha, «precede frequentemente o diálogo teológico e confere-lhe credibilidade».

A missão, observa, «é cada vez mais circular». As Igrejas de antiga tradição cristã recebem hoje missionários de África, da Ásia e da América Latina. «Isto nos obriga a superar a ideia de que algumas Igrejas são sempre mestras e outras, sempre destinatárias», salienta. «Os missionários provenientes do Sul global trazem uma fé jovem, novas sensibilidades pastorais e uma riqueza cultural que também pode transformar as Igrejas que os acolhem. O importante», afirma Lengarin, «não é de onde vimos, mas para quem somos enviados e como podemos servir juntos».
Esta reciprocidade envolve também os leigos. A corresponsabilidade, observa o superior-geral, «não nasce simplesmente da necessidade de contar com mais voluntários, mas do Batismo». «Os leigos», esclarece, «não são apenas colaboradores do clero ou dos religiosos, mas protagonistas da missão na família, no trabalho, na cultura, na política e na economia. Por isso, é necessário envolvê-los no discernimento e nas decisões, na formação espiritual e missionária, e reconhecer os dons das mulheres, dos homens e dos jovens. É preciso pensar, decidir e agir em conjunto».
O caminho missionário passa, por fim, pela comunhão. Ao recordar a mensagem do Papa Leão XIV para o centenário do Dia Mundial das Missões, Lengarin insiste que «a primeira responsabilidade da Igreja é manter viva a unidade espiritual e fraterna»: «A comunhão é fonte e fruto da missão». Quando prevalecem os conflitos, as polarizações e a desconfiança, o testemunho perde força. Em particular, nas comunidades internacionais da Consolata, «a unidade não significa uniformidade: nasce da oração comum, da Eucaristia, da escuta paciente, da correção fraterna e da disponibilidade para conhecer línguas, sensibilidades e modos de vida diferentes. As diferenças culturais, quando acolhidas como um dom, podem transformar-se num testemunho profético: pessoas diferentes podem formar uma só família em Cristo e uma só comunidade missionária».

De onde vem, então, a força para continuar a pôr-se a caminho? «O amor é a substância da missão», responde Lengarin, remetendo novamente para a mensagem do Papa para o DMM. «A fonte quotidiana é a união com Cristo, na Palavra, na Eucaristia, na oração e na fraternidade. Na espiritualidade da Consolata, a Eucaristia é fonte e cume da evangelização. Mas a força vem também dos pobres, nos quais Cristo se faz presente, e da presença silenciosa de Maria Consolata». «Nos momentos difíceis», observa, «volta a afirmar-se uma certeza fundamental: não somos nós que salvamos o mundo. O missionário é chamado a permanecer junto das pessoas com fidelidade, deixando que o amor de Deus chegue até elas através de pequenos gestos concretos e perseverantes».
Aos jovens, por ocasião do centenário do DMM, Lengarin dirige um convite simples e firme: «Levanta-te!». «Levanta-te da indiferença, do medo de errar e da ideia de que a tua vida deve ser construída apenas para ti mesmo». A missão não começa quando alguém parte para outro continente, mas quando se deixa tocar pela vida de Cristo. «Não tenhais medo», diz aos jovens, «de colocar a Deus grandes perguntas e de vos deixardes interpelar. O mundo precisa da vossa coragem, da vossa criatividade e da vossa capacidade de construir laços». E aqueles que não sentem uma especial inquietação missionária podem começar pela proximidade: «O encontro abre caminhos que não tínhamos previsto».

O primeiro africano à frente da Consolata chega à Etiópia convencido de que a missão continua a ser, acima de tudo, um movimento de saída de si mesmo para se aproximar do próximo. Essa terra, sonhada pelo Fundador, torna-se hoje também o lugar a partir do qual se pode contemplar uma missão que mudou ao longo de um século, mas que conserva a sua essência: o dom do Evangelho de Cristo ao mundo.
Atualmente, o Instituto dos Missionários da Consolata conta com 948 missionários, presentes em quatro continentes e em 33 países: 613 em África, 203 na Europa, 125 na América e 7 na Ásia. Entre eles, encontram-se 680 sacerdotes, 26 irmãos, 15 bispos e 228 estudantes professos nos diversos seminários.
* Paolo Affatato é jornalista da Agência Fides. Publicado em: www.fides.org


