
Quarta semana e conclusão do Curso Continental de Formação Contínua dos Missionários da Consolata reafirmaram a missão como caminho de esperança, fraternidade e renovação, levando consigo o compromisso de transformar a consolação recebida em consolação oferecida
Por Júlio Caldeira, IMC *
Depois de quatro semanas de encontros, formação, oração, convivência e discernimento, chegou ao fim, em São Paulo, o Curso Continental de Formação Contínua dos Missionários da Consolata com 10 a 15 anos de ordenação presbiteral. Realizado no Brasil, de 31 de agosto a 24 de setembro de 2026, o percurso foi vivido como um verdadeiro itinerário de renovação humana, espiritual, vocacional e missionária.
O caminho começou com a memória da própria história, passou pela redescoberta do carisma, entrou no silêncio do retiro e chegou, na quarta semana, à pergunta que orientou o envio: “Para onde a missão me envia hoje?”. Assim, o curso convidou cada missionário a olhar para o caminho percorrido não como algo encerrado, mas como uma história que continua aberta aos apelos de Deus.
Uma missão que nasce da experiência e se abre ao futuro
A última semana, realizada novamente em São Paulo, teve como eixo a formação “Discípulos missionários numa Igreja em saída”, assessorada pelo Pe. Dr. Antonio de Lisboa Lustosa Lopes, professor e pesquisador na área de Teologia Pastoral da PUC-SP, nos dias 21 e 22 de setembro.
Os encontros partiram da experiência concreta dos missionários: a presença junto às comunidades, o acompanhamento do povo, a celebração da fé, as dificuldades encontradas no caminho e a convivência com pessoas de diferentes culturas. A proposta era reconhecer os apelos de Deus presentes nessa experiência e discernir caminhos concretos para a missão ad gentes.
A reflexão retomou também o caminho das semanas anteriores. Depois de olhar para a própria história, reencontrar as fontes do carisma e fazer uma pausa espiritual no retiro, chegava o momento de voltar à estrada. A pergunta “Para onde a missão me envia hoje?” ajudou a integrar história, vocação, vínculos comunitários e realidade missionária.
O percurso formativo foi iluminado por três documentos do magistério do Papa Francisco: Evangelii Gaudium, com o convite à alegria da missão; Fratelli Tutti, com a fraternidade como dimensão da missão; e Laudato Si’, com o cuidado da Casa Comum, da vida e a esperança missionária.
A metodologia combinou escuta bíblica, breves intervenções, silêncio, partilha e trabalho em grupos. Mais do que acumular conteúdos, tratou-se de colocar a formação em diálogo com a vida e com as escolhas missionárias que cada participante é chamado a realizar junto às comunidades onde serve.

Fraternidade que se transforma em missão
A última semana também foi marcada por momentos de convivência e fraternidade. No dia 20 de setembro, os missionários participaram da tradicional Feijoada Missionária, realizada no Seminário Teológico Internacional Padre João Batista Bísio, em São Paulo, que reuniu mais de 350 pessoas.
O encontro revelou, de maneira simples e alegre, a força da colaboração e da participação de tantas pessoas que apoiam a missão da Consolata. Trabalho, generosidade, amizade e serviço fizeram da festa um momento de comunhão e de encontro com a comunidade que acompanha e sustenta a caminhada missionária.
Durante esses últimos dias, também foram partilhados testemunhos missionários dos padres Wilfred Gikundi, Alexander Muthengi e James Murimi, trazendo para o grupo experiências concretas de diferentes realidades e ajudando a perceber que, embora os contextos sejam diversos, existe uma mesma paixão pela missão.
Para o Pe. Patrick Murunga, missionário da Consolata queniano que trabalha no México, este curso de formação foi também uma oportunidade de reencontro consigo mesmo, com Deus e com os companheiros de missão:
“Levo desses dias de encontro um verdadeiro encontro comigo mesmo, com Deus e com meus companheiros missionários que estão em vários lugares. Isso enriquece meu caminhar como Missionário da Consolata.”
Voltar às fontes para continuar caminhando
Um dos momentos mais significativos da última semana foi a visita, no dia 23 de setembro, a São Manuel, no interior de São Paulo, lugar que ocupa um lugar especial na história dos Missionários da Consolata no Brasil e na América.
Foi ali que, em 1937, o Pe. João Batista Bísio iniciou a primeira presença do Instituto fora da África, dando início ao chamado “sonho americano”. Depois de semanas de formação sobre memória, carisma, espiritualidade e missão, retornar às origens adquiriu um significado especial: beber novamente das fontes para encontrar forças para o futuro.
O grupo visitou a Igreja Matriz de São Manuel, o Santuário de Santa Teresinha e a Aparecidinha. A visita permitiu também encontrar pessoas e famílias que guardam memórias vivas dos primeiros missionários. Entre elas estava a senhora Ana Quessada, cuja família teve contato com o Pe. João Batista Bísio e que recordou sua experiência pessoal e sua profunda admiração pelo missionário.
Para o Pe. James Murimi, missionário em Roraima, essa visita foi uma verdadeira experiência de retorno às fontes:
“A visita a São Manuel foi um momento muito importante e também muito significativo. Para nós, como grupo da Formação Contínua, retornar às fontes, ao lugar onde começou a nossa caminhada missionária no Brasil e a nossa primeira presença na América, teve um significado muito especial. Ali pudemos beber da história, escutar relatos e encontrar memórias que continuam muito vivas. Foi uma experiência que nos ajudou a renovar o nosso espírito e o nosso carisma e nos deu novas forças para continuar caminhando e levando adiante a missão.”


Quatro semanas, um único caminho
O curso foi pensado como um itinerário progressivo. A primeira semana, em São Paulo, teve como tema “Quem sou? – Memória” e convidou cada participante a reler sua história humana, vocacional e missionária. A segunda semana, em Foz do Iguaçu e Cascavel, trouxe a pergunta “A que família pertenço? – Carisma”, conduzindo ao reencontro com São José Allamano, com o Espírito de Família e com a herança espiritual dos Missionários da Consolata.
Na terceira semana, em Curitiba e Rondinha, a pergunta “O que Deus me pede hoje? – Retiro” abriu espaço para o silêncio, a oração e o discernimento. Finalmente, a quarta semana colocou diante dos missionários a pergunta: “Para onde a missão me envia hoje?”.
Assim, o percurso não terminou simplesmente com uma conclusão, mas com um novo envio. Olhar para trás, voltar às fontes, silenciar para discernir e, finalmente, voltar à estrada: quatro movimentos de um mesmo caminho de renovação missionária.

Um reenvio para continuar a missão
No dia 24 de setembro, o curso foi concluído com uma celebração eucarística junto à comunidade da Casa Regional dos Missionários da Consolata no Brasil, no Jardim São Bento, em São Paulo. A celebração, presidida pelo Pe. Juan Pablo de los Ríos, Conselheiro Geral do IMC para a América, assumiu o caráter de reenvio dos missionários para as comunidades onde continuam seu serviço.
Ao final do percurso, o Pe. Juan Pablo agradeceu a participação ativa de todos e destacou o ambiente de fraternidade e simplicidade construído durante o mês:
“Quero agradecer a cada um de vocês pela presença e pela participação ativa ao longo deste Curso de Formação Contínua. Cada um contribuiu para criar entre nós um ambiente de fraternidade, simplicidade e acolhida, que nos permitiu viver este mês como uma verdadeira experiência de formação, oração, fraternidade e espiritualidade, como irmãos e membros desta família missionária que tanto amamos e da qual nos sentimos orgulhosos. Desejo a todos uma boa viagem de retorno às suas respectivas comunidades. Que o Senhor continue abençoando, acompanhando e fortalecendo cada um de vocês em sua missão”.
O curso reuniu oito Missionários da Consolata provenientes de diferentes regiões do Instituto: James Murimi, Alexander Muthengi, Wilfred Gikundi e Urbanus Mulati, da Região Brasil; Fernando Florez, Edgar Chavarro e Júlio Caldeira, da Região Colômbia-Equador-Peru; e Patrick Murunga, da Região México-Canadá-Estados Unidos. A coordenação esteve a cargo dos padres Juan Pablo de los Ríos, Mauricio Guevara e Paulo Mzé.
Mais do que um curso, foram quatro semanas para parar e retomar o caminho. Um tempo para reconhecer a própria história, reencontrar as fontes, escutar a voz de Deus e olhar novamente para a missão com esperança.

“Voltamos consolados, agradecidos e renovados”
Ao concluir esta experiência, reconhecemos que o curso não termina com o último encontro. Ele continua na vida, nas comunidades, nas relações, nas escolhas e nos desafios cotidianos da missão.
Estas quatro semanas foram, para nós, um verdadeiro tempo de graça: uma pausa necessária e fecunda para parar, escutar e olhar novamente para nossa história, nossa vocação e nossa missão. Levamos conosco uma esperança renovada, a força da resiliência e uma confiança maior no Instituto e na missão.
Somos também gratos por termos podido retornar às fontes, reencontrar a história daqueles que nos precederam e perceber que fazemos parte de uma história muito maior. Levamos a consolação recebida, a alegria da convivência e das partilhas e o compromisso renovado de continuar servindo com zelo, ânimo e fé.
Como Missionários da Consolata, desejamos manter viva a chama de Deus em nossas vidas e na missão; não perder a alegria nem a capacidade de partilhar; e continuar caminhando juntos, especialmente junto aos povos que acompanhamos, com escuta, respeito e fraternidade.
Queremos saber “fazer amanhecer a Palavra” onde estivermos. Pedimos a Deus sabedoria para a vida e a missão, força para perseverar, humildade para servir e esperança para continuar caminhando.
Depois de quatro semanas, fica em nós uma certeza simples: a missão continua. E continuamos juntos, como uma família missionária, levando a esperança recebida e transformando a consolação recebida em consolação oferecida.
Voltamos para nossas comunidades consolados, agradecidos e renovados, com o desejo de transformar a esperança recebida em esperança partilhada e a consolação recebida em consolação oferecida.
“Avanti in Domino!” (Sigamos adiante no Senhor!), como nos dizia o Pai Fundador, São José Allamano.



