
A segunda semana do Curso Continental mostrou que a identidade missionária não se resume a conceitos ou tradições. Ela se constrói na memória das origens, na fraternidade, na cooperação, na proximidade com as pessoas e na disposição de continuar respondendo aos desafios da missão.
Por Júlio Caldeira IMC *
A segunda semana do Curso Continental de Formação Contínua dos Missionários da Consolata, destinado a missionários com 10 a 15 anos de ordenação, realizada entre Foz do Iguaçu e Cascavel, no Paraná, de 7 a 13 de setembro de 2026, teve como eixo a identidade carismática. Depois de uma primeira semana dedicada à memória e à releitura da própria história vocacional, o caminho formativo avançou para uma pergunta fundamental: quem somos como Missionários da Consolata e de onde nasce a nossa identidade missionária?
Com a assessoria do padre Lírio Girardi, Missionário da Consolata nascido em Santa Catarina e com uma longa trajetória missionária em Roraima, onde atuou por mais de 28 anos, os participantes foram convidados a aprofundar a figura de São José Allamano e as fontes do carisma que continuam animando a missão do Instituto em diferentes contextos do mundo.
Mais do que recordar conceitos ou elementos da história, a formação possibilitou olhar para o próprio caminho missionário e perguntar de que maneira o carisma recebido continua vivo depois de dez, doze ou quatorze anos de ministério. A reflexão sobre a identidade carismática foi, assim, um convite a reencontrar as raízes para compreender melhor o presente e renovar a disponibilidade para a missão.

“Beber nas fontes do nosso Pai Fundador”
Para o padre Urbanus Mulati Nzomo, um dos participantes, a formação foi uma oportunidade de “beber nas fontes do nosso Pai Fundador”, São José Allamano, e aprofundar aquilo que constitui a identidade da família da Consolata.
Missionário queniano, nascido em Machakos, Urbanus realizou sua profissão religiosa em 2009, em Moçambique, e foi ordenado presbítero em 2015. Sua trajetória missionária está ligada ao Brasil, onde chegou em 2010 para realizar sua formação teológica e, posteriormente, atuar durante oito anos na formação de seminaristas, em Curitiba, além da experiência pastoral na Paróquia Santa Margarida. Atualmente, exerce o ministério como pároco da Paróquia Senhor do Bonfim, em Engenheiro Pedreira, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro.
Ao recordar a experiência da semana, padre Urbanus destacou a importância de aprofundar continuamente a identidade do Instituto. “É necessário que sempre retomemos essa experiência sobre a identidade do Instituto e o carisma, que é o maior marco da nossa família da Consolata”, afirmou.
Para ele, a formação ajudou também a reconhecer a relação entre carisma, missão e vida comunitária. “Foi um momento forte que a gente tentou beber nas fontes deixadas por nosso Pai Fundador, sobre o carisma do Instituto e também a questão da missão que a gente vivenciou pelos anos de padre”, explicou. A experiência permitiu perceber novamente “a importância da vida comunitária” e da vivência dos valores que marcam a identidade missionária.
A partilha das experiências pessoais também foi destacada pelo missionário queniano. “A partilha dos grupos foi um momento marcante”, afirmou. As entrevistas com os padres Júlio Caldeira e Patrick foram, segundo ele, “uma rica partilha da experiência de vida”, permitindo conhecer diferentes caminhos dentro da mesma vocação e perceber como o carisma da Consolata se encarna em contextos diversos.

A missão partilhada torna-se experiência de fraternidade
A partilha das histórias de vida e missão dos padres Júlio Caldeira, brasileiro e missionário na Amazônia colombiana, e Patrick Murunga, queniano e missionário no México, tornou-se outro momento significativos da semana.
Cada história traz consigo diferentes lugares, culturas, experiências pastorais, alegrias, desafios e aprendizados. Ao colocar essas experiências em comum, os participantes puderam reconhecer a riqueza de uma vocação missionária vivida em diferentes realidades. Escutar o outro tornou-se também uma forma de reconhecer a própria história e descobrir que, apesar das diferenças de origem, cultura e experiência, existe uma mesma família carismática e uma mesma paixão pela missão.
A convivência ocupou igualmente um lugar importante. Em Foz do Iguaçu, o grupo conheceu as Cataratas do Iguaçu, o Marco das Três Fronteiras e a Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional. Mais do que somente momentos de integração, essas experiências favoreceram a convivência, a partilha e o fortalecimento dos vínculos entre os participantes.



Contemplar a grandiosidade das Cataratas, estar diante das fronteiras entre Brasil, Argentina e Paraguai e conhecer uma grande obra de engenharia e cooperação como Itaipu Binacional também possibilitou olhar para realidades que interpelam a missão: a beleza da criação, as fronteiras, as culturas, os povos, a capacidade humana de cooperar e o cuidado da Casa Comum.
Memória, cooperação e missão
A programação também levou os participantes para fora dos espaços tradicionais de formação. A visita à Copacol — Cooperativa Agroindustrial Consolata, em Cafelândia (PR) — possibilitou conhecer uma experiência concreta de organização, trabalho, cooperação e desenvolvimento.
A história da cooperativa está ligada à presença do Missionário da Consolata padre Luis Luise, um de seus fundadores em 1963. Conhecer essa trajetória despertou uma reflexão que toca diretamente a vida missionária: “Se você perde a história, corre o perigo de desviar-se do caminho”. A experiência mostrou como a memória das origens pode iluminar as escolhas do presente e ajudar a projetar o futuro. A história não é apenas uma recordação do que passou, mas uma referência para continuar construindo.

Durante a visita, padre Lírio Girardi recordou com emoção a figura de padre Luis Luise, a quem conheceu pessoalmente e definiu como “um missionário da Consolata autêntico”. Destacou sua genialidade “não só espiritual, mas também material”, sua devoção a Nossa Senhora Consolata e sua capacidade de criar e iniciar obras em benefício da região. “Diante da figura do padre Luis Luise, nós, missionários da Consolata, nos orgulhamos”, afirmou padre Lírio. Para ele, Luis Luise foi “uma pessoa extraordinária, que viveu intensamente a sua vocação missionária”, um “missionário de valor” que “vivia autenticamente a sua missão”.
A visita incluiu o museu da Copacol, onde os participantes puderam conhecer objetos pessoais de padre Luis Luise, entre eles o cálice, a estola e a batina, além de elementos da história da cooperativa. O encontro terminou com uma visita ao cemitério local, onde estão sepultados os padres Luis Luise e Marcelo Vampini, também Missionário da Consolata. Diante dos dois missionários, os participantes foram convidados a agradecer a Deus por suas vidas e testemunhos e a reconhecer neles exemplos de uma missão vivida com autenticidade, criatividade e dedicação.
Para os Missionários da Consolata, essa realidade pode ser contemplada à luz da própria vida comunitária. Criar resiliência e cultivar um espírito de cooperação são atitudes necessárias diante dos desafios da missão. Assim como uma cooperativa se fortalece quando seus membros caminham juntos, também a missão se torna mais fecunda quando é assumida de maneira corresponsável, partilhada e solidária.

O carisma vivido e celebrado junto ao povo
As vivências pastorais nas paróquias ajudaram a completar o caminho formativo. Na Paróquia Nossa Senhora Consolata, em Cafelândia, os participantes puderam compartilhar a vida com a comunidade local, celebrando com as pessoas e unindo memória, oração e missão.
Em Cascavel, na Paróquia São Paulo Apóstolo, a experiência ganhou uma dimensão ainda mais próxima. Além das celebrações e dos momentos de partilha, os missionários foram acolhidos pelas famílias e tiveram a oportunidade de compartilhar a vida em suas casas.
Essa experiência simples de hospitalidade recordou algo fundamental da missão: antes de anunciar, é preciso encontrar; antes de falar, é preciso escutar; antes de ensinar, é preciso deixar-se acolher. Entrar na casa de uma família, sentar à mesa, conversar e compartilhar a vida permite experimentar a missão a partir da proximidade e da fraternidade.

As celebrações eucarísticas realizadas nas comunidades também foram momentos privilegiados para colocar em comum a fé, o carisma e a missão, tornando-se um testemunho concreto de animação missionária e vocacional. O altar tornou-se lugar de encontro entre diferentes histórias, culturas e experiências missionárias.
Assim, a identidade carismática estudada durante a semana encontrou expressão concreta na vida das comunidades. O carisma de São José Allamano não permanece apenas nos livros ou na memória do Instituto: ganha rosto quando o missionário se aproxima das pessoas, celebra com elas, entra em suas casas e compartilha sua vida.

Uma identidade que se renova
Ao longo da segunda semana, foi possível perceber que a identidade carismática não é uma realidade estática. Ela precisa ser continuamente redescoberta, aprofundada e vivida. O carisma recebido de São José Allamano atravessa gerações e contextos, mas continua exigindo de cada missionário uma resposta pessoal e comunitária.
Depois de 10 a 15 anos de ordenação, voltar às fontes não significa simplesmente olhar para o passado. Significa recuperar as motivações que um dia levaram cada um a dizer “sim” à missão e perguntar novamente como esse chamado pode ser vivido hoje.
A memória, a formação, a convivência, a cooperação, a celebração e a inserção nas comunidades foram compondo, ao longo da semana, um mesmo caminho. Em Foz do Iguaçu, nas experiências de integração; na Copacol, através da história e do cooperativismo; em Cafelândia e Cascavel, no encontro com as comunidades e as famílias, os participantes puderam perceber diferentes expressões de uma mesma realidade: a missão é sempre uma experiência de encontro e de caminhada compartilhada.

O caminho formativo foi pensado como uma dinâmica progressiva: memória, carisma, discernimento e missão. Cada etapa prepara a seguinte e, juntas, procuram ajudar o missionário a renovar a consciência do próprio chamado e a disponibilidade para o envio.
Na terceira semana, em Curitiba, de 14 a 19 de setembro, será um tempo de Retiro Espiritual, com o tema “O que Deus me pede hoje?”. Depois de revisitar a própria história e reencontrar as fontes do carisma, os missionários serão convidados a entrar em um tempo mais profundo de silêncio, oração e discernimento, buscando escutar a voz de Deus que continua chamando e enviando.
Na quarta semana, a partir de 20 de setembro, novamente em São Paulo, o tema será “Para onde a Missão me envia hoje? – o Magistério da Igreja e os desafios da evangelização”. O percurso chegará, assim, à realidade atual da missão e da evangelização, buscando discernir como responder aos desafios do mundo contemporâneo à luz do magistério e da inspiração missionária deixada pelo Papa Francisco.
O objetivo do Curso, que se estenderá até o dia 24 de setembro, é reencontrar as fontes para compreender melhor quem somos e, a partir delas, renovar o modo de viver a missão.

* Padre Júlio Caldeira é Missionário da Consolata na Amazônia colombiana e um dos participantes do Curso Continental de Formação Contínua.


