Leonella Sgorbati: 20 anos de um martírio que continua falando de amor e perdão

A missionária da Consolata Leonella Sgorbati, assassinada na Somália em 2006, deixou um testemunho de amor, entrega e perdão. Suas últimas palavras — “perdoo, perdoo, perdoo” — permanecem atuais. Neste 17 de setembro, ao celebrarmos sua memória e seu martírio, disponibilizamos a oração e a liturgia para a Missa festiva

Por Júlio Caldeira IMC *

Como Igreja recordamos, neste 17 de setembro de 2026, a memória litúrgica e os 20 anos do martírio da Bem-aventurada Leonella Sgorbati, Irmã Missionária da Consolata que entregou sua vida em Mogadíscio, na Somália, enquanto se dedicava à formação de jovens enfermeiros.

Era domingo, 17 de setembro de 2006. Depois de dar aulas no hospital onde trabalhava, Irmã Leonella atravessava a rua acompanhada por Mahamud Mohammed Osman, um muçulmano que fazia sua escolta. Os dois foram atingidos por disparos. Mahamud morreu no local e Leonella foi levada ao hospital. Pouco depois, também faleceu. Suas últimas palavras foram: “perdoo, perdoo, perdoo”.

A frase tornou-se a marca de seu testemunho e a síntese de uma vida vivida na entrega. Diante da violência, Leonella respondeu com o perdão, recordando as palavras de Jesus na cruz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).

De Rosa Maria a Leonela

Nascida em 9 de dezembro de 1940, em Rezzanello di Gazzola, na província italiana de Piacenza, Rosa Maria Sgorbati ingressou no Instituto das Irmãs Missionárias da Consolata em 1963 e recebeu o nome de Leonella. Depois da primeira profissão religiosa, estudou enfermagem na Inglaterra.

Em 1970, foi enviada ao Quênia, onde trabalhou em hospitais e dedicou-se à formação de jovens enfermeiros. Entre 1993 e 1999, exerceu o serviço de Superiora Regional das Irmãs Missionárias da Consolata no país.

Sua missão a levou depois à Somália. Em 2000, participou da abertura de uma escola de enfermagem em Mogadíscio. Em meio a um contexto marcado pela guerra e pela instabilidade, a formação dos jovens tornou-se uma forma concreta de cuidar da vida e semear esperança.

Em 2006, os primeiros 34 jovens somalis concluíram sua formação como enfermeiros. Eram jovens muçulmanos, e Leonella os acompanhou com a convicção de que oferecer conhecimento e oportunidades também era contribuir para o futuro daquela sociedade.

O Papa Francisco autorizou o decreto de martírio da irmã Leonella Sgorbati em 8 de novembro de 2017. O reconhecimento oficial de que ela foi assassinada “por ódio à fé” (in odium fidei) abriu o caminho direto para sua beatificação, celebrada pelo cardeal Angelo Amato em 26 de setembro de 2018, em Piacenza, na Itália.

Alegria, espontaneidade e capacidade de relacionamento e perdão

Irmã Marzia Feurra recorda a dedicação da irmã Leonela ao ensino, mesmo quando enfrentava problemas de saúde e fortes dores físicas. “Ela sabia se planejar e valorizava cada minuto do seu tempo”, testemunha.

Essa dimensão alegre e próxima também aparece nos testemunhos recolhidos pela Postulação da causa. Leonella gostava de estar entre as pessoas e tinha uma personalidade comunicativa e calorosa. A missão, para ela, era vivida no encontro cotidiano, no cuidado e na proximidade.

Mas o testemunho do perdão já estava sendo construído em seu interior antes do martírio. Em 5 de agosto de 2006, poucas semanas antes de sua morte, Leonella escreveu em seu diário sobre a dificuldade de aceitar e perdoar uma acusação que considerava pesada e injusta. Em sua oração, reconheceu a resistência que havia dentro de si e pediu a ajuda de Nossa Senhora Consolata. Ao final, escreveu: “Desarma-me, desarma-nos”.

A oração revela uma mulher que não escondia suas lutas interiores. Leonella sabia que perdoar nem sempre é fácil e que, muitas vezes, é necessário pedir a Deus a graça de deixar cair as resistências que carregamos dentro de nós. Pouco depois, diante da violência que lhe tiraria a vida, suas últimas palavras seriam justamente um ato de perdão.

Irmã Leonella em Mogadíscio, capital da Somália, onde abriu uma escola de enfermagem. Fotos: Arquivo MC
O mártírio é um testemunho de amor, perdão e esperança

Leonella foi beatificada em 26 de maio de 2018, em Piacenza. Na celebração, o Cardeal Angelo Amato destacou o significado de seu testemunho e de suas últimas palavras. O martírio cristão, afirmou, não é resposta de violência à violência, mas testemunho de amor, perdão e esperança.

Vinte anos depois, a memória da Beata Leonella Sgorbati continua falando à Família Consolata e a todos aqueles que buscam caminhos de paz. Sua história recorda que a missão não se realiza apenas em grandes projetos, mas também no cuidado cotidiano, na formação, na proximidade e na capacidade de permanecer com as pessoas em situações difíceis.

Leonella entregou sua vida servindo. Morreu em uma terra marcada pela violência, mas suas últimas palavras apontaram para outra direção: “Perdoo, perdoo, perdoo.”

E permanece também sua oração, tão simples quanto exigente: “Desarma-me, desarma-nos”.

Irmã Leonella vivia com alegria e senti-se realizada na missão – Foto: Arquivo MC

Oração para pedir a intercessão da Beata Leonella

Deus Pai, Tu, que por meio do teu Espírito atuas em todos os povos, culturas e religiões, olha com amor e compaixão a Humanidade, tantas vezes sem paz e frágil no perdão.

Por intercessão da Beata Leonella Sgorbati, “fiel e alegre discípula do Evangelho”, que derramou o seu sangue por amor a Ti e aos mais necessitados, faz com que sejamos testemunhas credíveis da Tua misericórdia e concede-nos a graça que Te pedimos… (aqui pede-se a graça que desejamos obter).

Por Jesus Cristo, nosso Senhor, modelo e origem de todo o martírio. Amém.


Liturgia da Memória da Bem-aventurada Leonella Sgorbati, mártir

ORAÇÃO DE COLETA

Ó Deus que fizestes da Bem-aventurada Leonella Sgorbati, uma fiel e alegre discípula do Evangelho, até derramar o seu sangue por verdadeiro amor, concedei-nos também, por sua intercessão, testemunhar entre todos os povos a consolação prometida aos que acreditam em vós. Por nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

PRIMEIRA LEITURA – Do livro do profeta Isaias (61,1-3)

O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção; enviou-me a levar a boa nova aos humildes, curar os corações doloridos, anunciar aos cativos a redenção, e aos prisioneiros a liberdade;  proclamar um ano de graças da parte do Senhor, e um dia de vingança de nosso Deus; consolar todos os aflitos, dar-lhes um diadema em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de vestidos de luto, cânticos de glória em lugar de desespero. Então os chamarão as azinheiras da justiça, plantadas pelo Senhor para sua glória. Palavra do Senhor!

SALMO 34 (33)

R: Bendirei ao Senhor agora e sempre; cantarei seus louvores!

Vou bendizer o Senhor o tempo todo,
seu louvor estará sempre em minha boca.
Eu me orgulho por causa de Javé:
que os pobres ouçam e fiquem alegres.

Repitam comigo: Javé é grande!
Juntos exaltemos o seu nome.
Consultei a Javé, ele me respondeu,
me livrou de todos os temores.

O justo sofre muitas desgraças,
mas de todas elas Javé o liberta;
Javé protege os ossos do justo:
nenhum deles será quebrado.

O mal causa a morte do injusto;
os que odeiam o justo serão condenados.
avé resgata a vida de seus servos,
e os que nele se abrigam não serão condenados.

SEGUNDA LEITURA – Da carta de São Paulo aos Filipenses (2,5-11)

Tenham em vocês os mesmos sentimentos que havia em Jesus Cristo. Ele tinha a condição divina, mas não se apegou a sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz!
Por isso, Deus o exaltou grandemente, e lhe deu o Nome que está acima de qualquer outro nome; para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho no céu, na terra e sob a terra; e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. Palavra do Senhor!

EVANGELHO de Jesus Cristo segundo São João (12, 20-28)

Naquele tempo, havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém, para adorar durante a festa. Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e disseram: “Senhor, gostaríamos de ver Jesus”.

Filipe combinou com André, e os dois foram falar com Jesus. Jesus respondeu-lhes: “Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado. Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas, se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me quer seguir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará. Agora sinto-me angustiado. E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora?’ Mas foi precisamente para esta hora que eu vim. Pai, glorifica o teu nome!”.

Então veio uma voz do céu: “Eu o glorifiquei e o glorificarei de novo!”

Palavra da Salvação!

ORAÇÃO SOBRE AS OFERENDAS

Que sua bênção caia sobre nós como orvalho, Senhor, e sobre a oferta que vos apresentamos e nos confirme na fé que a Bem-aventurada mártir Leonella testemunhou com o dom da vida. Por Cristo, nosso Senhor. Amém.

ORAÇÃO DEPOIS DA COMUNHÃO

Ó Deus, misericordioso, pelo pão eucarístico que recebemos, dai-nos a luz da verdadeira fé e, juntamente com os vossos mártires, tornai-nos coerdeiros da eterna glória. Por Cristo, nosso Senhor. Amém


Túmulo da Bem-aventurada Leonella Sgorbati em Nairóbi, no Quênia. Foto: Jaime C. Patias

* Padre Júlio Caldeira é missionário da Consolata na Amazônia colombiana.

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