Valorizar a cultura, fortalecendo a identidade

Fotos: Pastoral Afro, diocese de Nova Iguaçu

Primeira edição do festival arte e cultura afro. A Pastoral Afro-Brasileira é modo de ser da Igreja, a Igreja atenta aos sinais dos tempos. A Igreja como tenda, aberta para acolher e que caminha com todos os povos, escutando seus clamores e angústias, suas alegrias e esperanças.

Por Wilson Gervace Mtali *

A Pastoral Afro-Brasileira nasce como necessidade de uma Igreja que deseja se fazer presente na vida do povo afro-brasileiro, não uma presença passiva, mas uma presença que anima, encoraja, se sensibiliza e se compadece com suas dores e deseja fazer parte na construção da sua esperança. O povo afro negro tem identidade, tem cultura que é uma herança dos seus antepassados que chegaram escravizados nas Américas.

A história nos mostra que uma das ferramentas utilizadas para melhor dominar o povo escravizado, era a destruição da sua identidade cultural, impedindo qualquer prática cultural e religiosa pertencente ao povo negro escravizado. Além de proibir a prática cultural, ao longo da história foi se criando uma cultura de demonização de qualquer elemento cultural oriundo da África e, portanto, que pertence ao povo afro-brasileiro.

As consequências são desastrosas, o povo afro-brasileiro foi perdendo a sua identidade, criando vergonha da sua cultura o que gerou a baixa autoestima. Um povo sem identidade e com baixa autoestima é uma presa fácil para qualquer sistema de dominação, pois não tem raízes nos valores pelas quais vale a pena lutar, é um povo que se entrega com muita facilidade ao sistema dominante e assim criando terreno fértil para o racismo, preconceito e discriminação. Os exemplos são muitos, mas o mais visível é o preconceito e a perseguição que as religiões de matriz africanas sofrem diariamente.

Elas não são vistas como formas diferentes de crença que devem ser respeitadas dentro de uma nação democrática com a liberdade religiosa garantida pela lei, mas, como um mal que deve ser combatido. Diante dessa realidade triste, quando se busca a causa do preconceito e perseguição não é tanto religiosa, mas é a demonização histórica da cultura ou crença do povo afro. Além do preconceito e discriminação cultural que passa pela religião no exemplo acima citado, há inúmeros casos de preconceitos que as pessoas negras sofrem por conta do cabelo, modo de se vestir, a dança e na música.

A Igreja, através da presença da Pastoral Afro-brasileira no meio da população afro-brasileira, promovendo, valorizando e visibilizando a cultura afro quer participar ativamente no processo de combate contra racismo, preconceito e discriminação cultural. Assim, conscientizando e encorajando as pessoas negras a assumirem sua identidade sem medo e se orgulhar da sua herança cultural de origem africana, como afirma Frantz Fanon, “uma das formas de exercer a autonomia é possuir um discurso sobre si mesmo e abandonar a descrição colonial que foi feita sobre nós”.

“Valorizar a Cultura, fortalecer a identidade negra”

É com este objetivo que no dia 15 de Agosto, a Pastoral Afro Brasileira na diocese de Nova Iguaçu realizou a primeira edição de Festival de Arte e Cultura Negra com o tema “Valorizar a Cultura, fortalecer a identidade negra”. O Festival teve como objetivo dar visibilidade a cultura afro-brasileira como forma de combate ao racismo e preconceito. Mas também valorizar e incentivar todos os grupos que trabalham nesta perspectiva, mostrando a beleza da cultura afro e contribuindo para conscientização e fortalecimento da identidade negra. A coordenação diocesana veio pensando e sonhado ao longo de três anos sobre a forma como poderia trabalhar mais a dimensão cultural, o festival é resultado desse sonho.

 O festival uniu diversos grupos que trabalham com cultura afro; como capoeira, maculelê que é uma manifestação cultural afro-indígena, jongo, Carimbó reconhecido oficialmente como patrimônio cultural imaterial do Brasil, por mais que não seja puro afro, mas os povos africanos escravizados tem uma grande contribuição, principalmente no que se refere a percussão e no ritmo. Além da apresentação de arte e danças, houve também desfile de moda e apresentação musical como samba de Roda e venda de artesanatos afros. 

O festival é um passo importante para a pastoral afro na diocese de Nova Iguaçu que tem mais de 69% de moradores que se declaram pretos ou pardos. Mas também a participação de diversos grupos de pessoas não católicas é afirmar que na luta contra o racismo e preconceito todos devem unir a força.

* Padre Wilson Gervace Mtali, IMC, coordenador da Pastoral Afro, diocese de Nova Iguaçu e vigário da Paróquia Senhor do Bonfim, Rio de Janeiro.

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