Padre Pietro Parcelli: dedicação aos povos indígenas e às periferias urbanas

Padre Pietro Parcelli em Salvador. Fotos: arquivo pessoal e IMC

Faleceu, aos 88 anos, o padre Pietro Parcelli, missionário da Consolata que dedicou mais de meio século de vida ao serviço pastoral, à defesa dos povos indígenas na Amazônia e às periferias de Salvador e Manaus.

Por Michelangelo Piovano *

No dia 15 de agosto de 2026, Solenidade da Assunção, foi chamado à casa do Pai o missionário da Consolata, padre Pietro Parcelli, enquanto estava com seus familiares para um período de férias em Dragonea, Vietri sul Mare, Província de Salerno, na diocese de Cava de’ Tirreni, Sorrento (Itália). Tinha 88 anos de vida, dos quais 63 de profissão religiosa e 60 anos de sacerdócio.

A Missa exequial, presidida pelo arcebispo de Amalfi-Cava de’ Tirreni, dom Orazio Soricelli, e concelebrada pelo Vice-Superior Geral do IMC, padre Michelangelo Piovano, pelo padre Pedro Louro e por outros sacerdotes, realizou-se no domingo, 16 de agosto, na igreja dos Santos Pedro e Paulo, em Dragonea de Vietri sul Mare, sua terra natal.

Funeral do Padre Pietro na Itália
Padre Pietro foi um homem a caminho

“Morreu no dia em que a Igreja contempla Maria já entrada na vida plena, já chegada aonde nós ainda estamos a caminho. E no plano de Deus não foi um acaso”, afirmou o bispo em sua homilia. “Porque o padre Pietro foi, durante toda a sua existência, um homem a caminho. De Dragonea ao seminário. De Cava a Turim. De Turim ao Brasil. Da Amazônia a Salvador da Bahia. Dos índios às crianças das favelas. Das periferias do mundo até à sua casa, para onde voltou para entregar definitivamente a sua vida ao Senhor. A sua vida foi uma estrada”, sublinhou dom Orazio.

“Mas hoje o Evangelho diz-nos algo ainda maior: a estrada da missão conduz sempre ao outro. E o padre Pietro percorreu verdadeiramente essa estrada. Tinha apenas dezessete anos quando deixou os estudos secundários e entrou no seminário de Cava de’ Tirreni. Depois Salerno. E em 1961 Turim, no Instituto Missões Consolata. Não foi uma escolha fácil”, destacou.

“O padre Pietro passou cinquenta anos no Brasil e, mesmo depois de ter regressado à Itália, nunca deixou verdadeiramente de ser missionário. Pelo contrário, quando voltou, continuou a interessar-se pela sua terra, pela sua Dragonea, pela sua gente. Mesmo diante dos problemas concretos da comunidade, não permaneceu espectador: empenhou-se, procurou respostas, envolveu sacerdotes e instituições. Porque a missão não é um lugar. A missão é um olhar”.

Celebração dos 88 anos de vida do Pe. Pietro na Itália
Convivência no Brasil e na Itália

Compartilho com prazer algumas notas sobre a vida do padre Pietro Parcelli a partir da memória de tantos momentos bonitos vividos juntos no Brasil e na Itália nestes últimos anos.

Tive a oportunidade de conhecer o padre Pietro pela primeira vez nos anos em que ele trabalhava na Itália na animação missionária e vocacional, após uma primeira experiência missionária vivida por ele no Brasil. Encontrei logo nele um missionário apaixonado pela missão, amigo e disponível para ir ao teu encontro em tudo o que pudesse criar família e comunhão.

Lembro-me de que estávamos na nossa comunidade de Bedizzole para um encontro e ele, um dia, levou-me ao Lago de Garda, onde naquela época ainda havia pequenas praias tranquilas nas quais se podia tomar banho. Ele vinha de uma terra voltada para o mar, o mar para o qual se volta Vietri, por isso a paixão pelo mar, por um lago ou por um rio fazia parte do seu DNA.

Pe. Pietro e Pe. Michelangelo na Casa Geral, em Roma

Missão junto aos Povos Indígenas

Mais do que o amor pelo mar, foi no Brasil que conheci a fundo sua dedicação à missão, aos mais pobres e aos povos indígenas. Antes da sua atuação em Salvador, Padre Pietro trabalhou no norte do Brasil, no estado de Roraima, onde há mais de 70 anos os missionários da Consolata atuam junto às populações indígenas.

Percebendo que em Boa Vista era necessária uma estrutura para acolher os indígenas que vinham da floresta para tratamento de saúde, ele idealizou e construiu o hospital Hekura Yano (“espíritos da floresta” e “casa comum”). Durante anos, a instituição prestou um serviço de excelência com o apoio de médicos, voluntários e das missionárias da Consolata.

Pe. Pietro em Manaus, na Amazônia brasileira
Atuação em Salvador e o “Kilombo do Kioiô”

Em Salvador, Padre Pietro trabalhou na área de Alagados, uma periferia com palafitas sobre o mar marcada pela extrema pobreza. Na paróquia de São Braz (São Biágio), organizou cursos profissionais, ajuda alimentação e escolar para as famílias, além de espaço para atividades esportivas e culturais.

Dessa iniciativa nasceu o “Kilombo do Kioiô”, centro de acolhimento e capacitação voltado sobretudo para as mães da comunidade, incluindo uma padaria comunitária. Para manter este e outros projetos, Padre Pietro mobilizou uma grande rede de benfeitores, amigos e seus próprios familiares, enviando cartas periódicas para relatar as conquistas e prestar contas com total transparência.

O seu trabalho unia o compromisso social e a dimensão pastoral, cuidando da catequese, da formação e da celebração dos sacramentos. Enfrentou momentos difíceis e de sofrimento ao longo da vida com intensa fé e oração, sendo frequentemente visto em prolongados momentos de oração na capela, tanto em Roma quanto em Turim.

Pe. Pietro com crianças de Salvador
A Contribuição para a Canonização de São José Allamano

Padre Pietro prestou um serviço fundamental para a Igreja ao retornar a Boa Vista para reunir a documentação médica do milagre de cura do indígena Sorino Yanomami. Com determinação e o auxílio da médica Dra. Roberta Barbaro, ele localizou os médicos, os relatórios e constatou o estado de saúde de Sorino na Missão Catrimani.

Esse levantamento permitiu a abertura do processo diocesano em 2021, culminando na canonização do fundador dos Missionários da Consolata, São José Allamano, pelo Papa Francisco em 20 de outubro de 2024.

Padre Pietro, quanto mais poderíamos contar de ti. Tudo está registrado no “Livro da Vida”, selado pelo Senhor na Solenidade da Assunção da Virgem Maria.

Obrigado, Padre Pietro Parcelli, por tudo o que nos deste, e obrigado aos teus familiares e amigos pelo apoio constante. Continua a rezar por todos nós e por aqueles a quem serviste em tua vida missionária.

Pe. Pietro Parcelli no Seminário IMC de Bravetta, Roma
Breve Biografia

Nascido a 29 de junho de 1938 em Vietri sul Mare, província de Salerno (Itália), filho de Gerardo e Pastore Genoveffa, o padre Pietro Parcelli fez a profissão temporária a 2 de outubro de 1962 em Rosignano Monferrato e a profissão perpétua a 17 de julho de 1965 na Certosa di Pesio. Foi ordenado sacerdote a 18 de dezembro de 1965 em Dragonea.

Estudos Realizados:

  • 1945–1950: Ensino Fundamental I em Dragonea
  • 1950–1954: Ensino Fundamental II em Cava dei Tirreni
  • 1954–1957: Ensino Secundário em Salerno
  • 1957–1961: Filosofia em Salerno
  • 1962–1966: Teologia em Turim
  • A partir de 1967: Licenciatura em Teologia pelo Seminário da Arquidiocese de São Paulo (Brasil)
  • 1969–1972: Diploma em Ciências Sociais pela Faculdade Anchieta de São Paulo (Brasil)

Cronologia das Atividades Exercidas:

  • 1967–1973: Assistente nos Seminários de São Paulo e Três de Maio (Brasil)
  • 1974–1976: Pároco em Boa Vista (Roraima)
  • 1976–1978: Professor em São Paulo
  • 1979–1983: Animação missionária em Brindisi e Pescoluse (Itália)
  • 1983–1984: Curso de pastoral juvenil em Roma
  • 1984–1999: Pastoral indígena no Estado de Roraima e conselheiro regional em Boa Vista
  • 1999–2014: Pastoral na periferia urbana de Salvador (Bahia) e em Manaus
  • 2014–2022: Pastoral na sua paróquia em Dragonea e novamente em Salvador
  • 2022–2025: Atuação na Casa Generalícia de Roma
  • 2025–2026: Atuação na Casa Mãe de Turim

* Padre Michelangelo Piovano, IMC, Vice-Superior Geral dos Missionários da Consolata

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