Deixar-se encontrar

23 de outubro de 2020
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“Deus ama quem dá com alegria…!” Neste ano de 2020, o papa Francisco, em sua mensagem para o Dia Mundial de Orações pelas Vocações, nos oferece como tema: “Amados e escolhidos por Deus”.

Por Clemência Alves Sicupira*

Esta é uma expressão gratificante para nós que, desde sempre acreditamos que Deus nos amou com amor eterno e nos escolheu entre tantas pessoas para nos enviar a anunciar a Boa Notícia aos povos, além das fronteiras do nosso próprio país.

A minha vocação começou na minha família que é muito religiosa. Minha mãe foi uma mulher de fé e oração. Rezava sempre para ter um filho sacerdote, e Deus lhe deu duas filhas missionárias.Deus amou muito minha mãe, que soube dar com alegria duas filhas para Deus. Que lindo gesto! Tudo começou quando eu tinha 17 anos, tempo da inquietude, de crise, do “vai e vem”, do vazio interior. Foi justamente nesse tempo tumultuado que Deus me chamou para uma vida nova. Eu não podia acreditar, mas para Deus nada é impossível.

Para meu pai não foi assim simples. Ele chegou a me dizer: “Eu te dou um mês para você ir e retornar”. No entanto, Deus foi me moldando, me amando, e fiz os primeiros votos, a Consagração a Deus. Em seguida, fui para a Itália continuar a minha formação. Foram dois anos apenas, tempo de graças e bênçãos que reforçou a minha entrega ao Senhor para a Missão.

Ao retornar ao Brasil, completei a minha formação acadêmica, fazendo o curso de enfermagem, um instrumento muito útil para a atividade missionária. Ao final do curso fiz os votos perpétuos, meu sim definitivo a Deus e retornei novamente à Itália, desejosa da bênção do Pai Fundador, na ocasião de sua beatificação: 7 de outubro de 1990, em Roma. Esse foi um momento privilegiado de graça para mim, antes de chegar finalmente à missão tão desejada em Moçambique, que na época estava mergulhado numa guerra civil. As viagens pelo interior do país eram difíceis, devido aos contínuos ataques da guerrilha. Após várias tentativas, finalmente cheguei a Montepuez, minha comunidade de Missão. Lá estavam as irmãs da Consolata que me acolheram com tanta alegria e esperança; e eu muito feliz por ter chegado. Na semana seguinte eu já estava no hospital trabalhando com a irmã Teresa José. Assim iniciei a minha nova Missão. “Deus ama quem dá com alegria”. Com grande coragem, todas as manhãs eu ia cuidar os doentes e feridos de guerra. Foi então um tempo de muito sofrimento para mim que estava apenas chegando de um país que tinha tudo, enquanto que em Moçambique, país muito pobre e dilacerado pela guerra, havia falta até do necessário (água, luz etc.). Além do trabalho no hospital, visitava os leprosos duas vezes por semana na aldeia, levando para eles medicamentos, cobertores, sabão etc. A guerra acabou no ano de 1992 e voltamos a viver tempos de paz.

Parteira

Após sete anos, fui transferida para outra missão do país, para coordenar um Centro Nutricional de crianças malnutridas e trabalhar na maternidade de um pequeno hospital com outras duas enfermeiras. Ali também foram experiências inesquecíveis, pois os partos aconteciam sempre à noite. Às vezes tinha que acompanhar as parturientes com graves complicações até ao hospital da capital, onde havia médico, a uma distância de 250 km. Eram frequentes os casos de partos serem realizados durante a viagem. Só Deus sabe o que se passava comigo naquelas horas de aflição, sozinha, sem poder pedir um parecer para alguém; quem me socorria naquelas horas difíceis eram a Virgem Consolata e o nosso Fundador, com aquelas palavras de São Paulo que me impulsionavam sempre. “Deus ama quem dá com alegria”. Eu tinha plena convicção, que Deus me amava e assim providenciava tudo naquelas horas mais difíceis, sempre sussurrando em meu ouvido: não temas, eu estou contigo!

Naquela Missão eu fiquei três anos, quando fui transferida para o sul do país. Aí também me aconteceram tantas aventuras no trabalho de animação das Comunidades e pastoral da juventude. Foram anos inesquecíveis.

Cuidar da mãe

Depois de 23 anos de Missão Ad Gentes eu senti que Deus me chamava para outra missão: cuidar da minha mãe que se encontrava muito doente, com Parkinson. Assim em 2006 retornei ao Brasil para cuidar dela, assistindo-a dia e noite. Ela animava a todos nós com sua fé e doação, mas foram momentos difíceis que não os esqueço, e em 2009 ela foi chamada à casa do Pai.

Enfim, a nossa vida missionária é cheia de tantos momentos belos e também desafiadores, que é impossível descrevê-los todos.
Depois, trabalhei três anos em Dourados, MS, com os Povos Indígenas. Amei aquela Missão e me sentia igual a eles em tudo: nas celebrações, trabalhos e jogos de capoeira com as crianças, amando e servindo a todos com alegria.

Em 2016, fui transferida para São Paulo, na Comunidade Nossa Senhora Aparecida, do Jardim Peri, onde trabalho com muita alegria e dedicação, amando e servindo minha gente nordestina. Interajo com eles para ganhar a sua amizade e confiança, que são valores essenciais para o trabalho social e de evangelização, principalmente durante esse tempo de pandemia com novo jeito de ser Missão. Conhecemos novos amigos, novos vizinhos, que nos apoiam para socorrer as famílias mais carentes das Comunidades com cestas básicas, kits de higiene e máscaras.

Outra experiência linda que estamos vivenciando é uma maior aproximação e participação das pessoas na Celebração aos domingos. Deus está tocando o coração das pessoas para buscarem mais o Senhor neste tempo de pandemia. Que elas sejam agraciadas por Deus na busca da sua misericórdia infinita e que possam viver com coração humilde e sincero.
Termino com o apelo do papa Francisco a todos nós: “Convido todo cristão a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de procurá-lo dia a dia sem cessar”.

* Clemência Alves Sicupira é Missionária da Consolata em São Paulo, SP.

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