Assembleia encerra Visita Canônica à Região Brasil

Participantes da Assembleia Regional em São Paulo, Brasil Foto: Ibrahim Muinde

A Assembleia Regional reuniu missionários da Consolata de diversas partes do Brasil entre os dias 19 e 22 de maio, encerrando a Visita Canônica do Superior Geral, padre James Lengarin e do seu vice, padre Michelangelo Piovano.

Por Redação *

Após mais de um mês de visitas às comunidades, encontros, diálogo e discernimento os missionários realizaram em São Paulo a Assembleia Regional. O encontro foi marcado por reflexões sobre missão, vida comunitária, espiritualidade e os desafios atuais.Os missionários que atuam na Amazônia também participaram de forma on-line.

Para os superiores de Roma, a experiência da Visita Canônica  representou “um tempo de graça, de verificação fraterna e de discernimento comunitário”, permitindo rever a caminhada dos missionários da Consolata no Brasil, iniciada em 1937.

O relatório apresentado durante a Assembleia destacou o atual momento vivido pela Região Brasil, marcado pela diversidade cultural e pela presença crescente de jovens missionários provenientes da África, além da contribuição de missionários europeus e latino-americanos que seguem atuando no país.

Para os 83 missionários da Consolata presentes no País (2 bispos, 58 padres, 4 irmãos, 4 diáconos e 15 estudantes professos), essa realidade expressa de forma concreta a universalidade da missão da Igreja e reforça a necessidade de viver a missão com “fidelidade criativa”, diante dos desafios contemporâneos.

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Vocação deve ocupar o centro da missão da Igreja

Visita canônica dos Missionários da Consolata percorre comunidades no Brasil

A Assembleia também aprofundou reflexões sobre a vida consagrada, espiritualidade missionária, vida comunitária e o compromisso pastoral junto às periferias urbanas, povos indígenas, migrantes e afrodescendentes.

Os participantes reforçaram a importância de uma espiritualidade missionária enraizada no Evangelho e na realidade do povo. O documento recorda que “a missão não é uma atividade: é nosso modo de ser”, reafirmando o carisma deixado por São José Allamano.

Comunidade de Maturuca na TI Raposa Serra do Sol, Roraima

Outro destaque foi a missão na Amazônia, considerada pelos visitadores como uma presença significativa do Instituto no Brasil. O relatório sobre a Visita Canônica evidencia o trabalho junto às populações indígenas e tradicionais, a defesa dos direitos humanos, o cuidado com a Casa Comum e a colaboração com a Igreja local na construção de uma Igreja com rosto amazônico.

A dimensão comunitária também esteve entre os temas debatidos. Os participantes refletiram sobre a necessidade de fortalecer comunidades fraternas, acolhedoras e marcadas pela partilha, pela escuta e pela corresponsabilidade missionária.

Vocação deve ocupar o centro da missão da Igreja

Os desafios da vocação sacerdotal e religiosa no contexto atual foram tema da reflexão conduzida pelo padre Mauro Negro, religioso dos Oblatos de São José (OSJ), professor das Sagradas Escrituras na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e no ITESP. O professor conduziu uma análise sobre os caminhos da pastoral vocacional diante das mudanças culturais, sociais e religiosas das últimas décadas.

Na sua reflexão, padre Mauro utilizou a parábola do semeador, do Evangelho de Mateus, para abordar a missão da Igreja na promoção vocacional. Segundo ele, o cenário contemporâneo exige discernimento, testemunho e clareza na evangelização. O religioso chamou atenção para o risco de a vocação ser tratada como apenas mais uma atividade pastoral dentro das comunidades e congregações. Para ele, é necessário recolocar a promoção vocacional no centro da vida missionária e eclesial.

“A Vocação é prioridade ou não é? A semeadura é prioridade ou não é?”, questionou.

Padre Mauro também refletiu sobre os impactos das transformações tecnológicas, das redes sociais e das mudanças culturais na vivência da fé, observando que o excesso de informações e discursos muitas vezes dificulta uma experiência profunda com Deus. Segundo ele, a Igreja é chamada a fortalecer o testemunho e investir em processos formativos sólidos, capazes de unir espiritualidade, inteligência e maturidade humana.

“Sem o cultivo da fé como virtude, como resposta de inteligência e de afeto, não pode haver direção, caminho aceito e vivenciado”, afirmou e destacou que a vocação nasce da experiência concreta da fé e da relação pessoal com Cristo, recordando que a missão da Igreja continua sendo a de semear, mesmo diante das incertezas do tempo presente. “A Vocação é uma expressão de Fé. E a Fé é uma Vocação”, concluiu.

Análise de conjuntura

A programação da Assembleia incluiu ainda uma análise de conjuntura conduzida pelo padre Alfredo Gonçalves (Alfredinho), missionário scalabriniano e colaborador da Revista Missões. Em uma reflexão sobre a realidade social, econômica, política e eclesial do Brasil e do mundo, o sacerdote apresentou dados preocupantes e destacou os desafios enfrentados pela sociedade contemporânea e pela própria Igreja.

Segundo ele, vivemos um período de “grande precariedade” dos direitos humanos universais, agravado pelo crescimento da desigualdade social e pela insegurança vivida pelas famílias trabalhadoras. Como exemplo, citou o aumento da população em situação de rua nos grandes centros urbanos.

“Em todos os centros das capitais nós temos hoje uma favela com barracos, com tendas, como a gente está acostumado a ver”, afirmou. Padre Alfredinho também chamou atenção para a violência doméstica e o avanço dos feminicídios no Brasil.

Ao abordar o mundo do trabalho, criticou duramente a chamada “uberização” da economia e o discurso do empreendedorismo.

Outro ponto destacado foi a questão migratória. Padre Alfredinho lembrou que cerca de 800 milhões de pessoas vivem fora de seus territórios de origem, considerando também as migrações internas, e afirmou que muitos migrantes acabam sendo utilizados como “exército de reserva” para pressionar salários para baixo.

Em sua análise política, o missionário declarou que o crime organizado já não está restrito às periferias. “Está na Avenida Faria Lima (importante via de São Paulo), está em Brasília, está nos três poderes da União”, afirmou. “Os governos do mundo inteiro são reféns do mercado”.

A reflexão também alcançou a realidade da juventude e da Igreja. Padre Alfredinho alertou para o aumento do suicídio entre jovens – inclusive dentro do clero – e afirmou que muitos perderam referências sólidas em uma sociedade marcada pela fluidez e pela insegurança.

Sobre a Igreja Católica, o missionário criticou o que chamou de “ritualismo estéril” e a tentativa de retorno a uma “igreja triunfal da Idade Média”. Para ele, a vida consagrada e missionária deve recuperar a essência do Evangelho e da prática de Jesus, superando uma religiosidade apenas exterior. “Hoje não estamos em tempo de colheita… são anos de semeadura”, enfatizou.

Padre Alfredinho também apontou sinais de esperança. Entre eles, destacou a democratização do acesso à saúde, especialmente através do Sistema Único de Saúde (SUS), a redução da mortalidade infantil e o aumento da expectativa de vida em diversas partes do mundo.

Encerrando sua reflexão, deixou uma provocação sobre ética e responsabilidade social: “Liberdade não é fazer o que se quer. Liberdade é fazer o que não se quer… porque a liberdade é acompanhada da responsabilidade”.

Ao final da Assembleia, os missionários renovaram o compromisso com a missão ad gentes, o diálogo intercultural, a promoção humana e a evangelização nas periferias existenciais.

Segundo o Superior da Região Brasil, padre Paulo Mzé, “a Visita Canônica foi um reencontro com o que realmente somos como família missionária da Consolata. À medida que tanto o Superior Geral, quanto o vice puderam ver, ouvir e experimentar a missão que os missionários da Consolata estão levando a cabo no Brasil”.

Padre James Lengarin e padre Michelangelo Piovano incentivaram a Região Brasil a investir na preservação da memória histórica da missão no país, especialmente diante da proximidade do centenário da presença do Instituto em território brasileiro. Entre as propostas apresentadas estão a criação de um arquivo digital regional e iniciativas voltadas à valorização dos locais históricos da missão.

Padre Paulo Mzé, padre James Lengarin, padre Alfredo Golçalves e padre Michelangelo Piovano

“Confiamos o caminho futuro da Região Brasil à intercessão de Maria Consolata, para que continue nos guiando no anúncio do Evangelho com coragem, humildade e esperança”, conclui o documento dos visitadores apresentado no final da Assembleia.

* Revista Missões – Comunicação IMC Brasil

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