Ajudar o pensamento e colaborar para a defesa da vida

Devastação causada pela mineração ilegal na Terra Indígena Yanomami, no estado de Roraima, julho de 2024. Foto: J.P.

“Olhem para os desenhos de nossas palavras e pensem direito”: pensar a colaboração em uma pesquisa com os Yanomami sobre o garimpo. Este é o título da tese de doutorado em Ciências Sociais (área de antropologia) que defendi, no dia 31 de julho, na Universidade Federal de São Paulo.

Por Corrado Dalmonego *

Agora, porém, ainda tenho algumas semanas para fazer as alterações no texto sugeridas pelos importantes comentários da banca examinadora, composta por quatro doutores e meus orientadores, que ocorreu online e durou cinco horas.

Em 2021 a Direção Geral do Instituto Missões Consolata me convidou a retornar aos estudos e procurar uma universidade para desenvolver um projeto de doutorado. Após algumas tentativas, tendo deixado a Missão Catrimani, onde vivia há 14 anos, nas mãos de uma nova geração de missionários, em 2022 retomei “também” o papel de pesquisador acadêmico, que tinha desempenhado durante o mestrado, concluído em 2015.

Padre Corrado intervenendo al Forum di leader Yanomami e Ye´kwana (Surucucú, 2025)

Escrevo “também” porque, durante esses anos de estudo, nunca interrompi minhas atividades como missionário e indigenista junto ao povo Yanomami. De fato, continuei participando, a pedido de associações indígenas, de ONGs, da Pastoral Indigenísta da Diocese de Roraima, do Conselho Indigenísta Missionário (Cimi), de universidades e órgãos governamentais, em atividades como cursos, assembleias, processos de escuta, reuniões e elaboração de documentos, tanto dentro quanto fora da floresta. Dessa forma, pude abordar questões como a saúde, as violações de direitos humanos, os crimes cometidos contra os Yanomami, a proteção e a governança de seu território, a educação diferenciada, a formação de professores entre muitas outras.

Realizar uma pesquisa de doutorado com os Yanomami não significa isolar-se em uma teca de estudioso ou trancar-se em uma biblioteca. Pelo menos, foi assim para mim, embora, para conseguir escrever um texto longo e depois cortar tudo o que precisava ser removido, tive que passar horas e horas sentado ao computador. A interligação entre estudo, pesquisa e continuidade do trabalho com os Yanomami era clara para mim desde o início e foi um dos princípios orientadores do meu engajamento.

Padre Corrado coleta informações sobre as violações causadas pela mineração na TIY

Eu não queria estudar apenas por estudar, no contexto de uma pandemia, uma crise sanitária e um desastre humanitário com centenas de mortes evitáveis, e a invasão da floresta por milhares de garimpeiros, com logística sofisticada e poderosa rede de financiamento, que levou a um crescendo de violência. Com tudo o que os Yanomami tinham-me ensinado e partilhado comigo, em vários anos de convivência, de trabalho, e com relações de confiança e amizade estabelecidas, eu queria ser útil, colocar a disposição os conhecimentos adquiridos, apoiar situações difíceis e contribuir para a busca de soluções.

Desde o início, também acreditei ser necessário conduzir uma pesquisa não “sobre” os Yanomami, como seria, por exemplo, o estudo de um napë (não indígena, branco ou estrangeiro), “sobre” sua organização social, “sobre” sua cosmovisão ou “sobre” sua concepção de território. Assim, um segundo princípio orientador do meu estudo foi dialogar, pensar e escrever “com” eles. Resgatando a experiência de intensos anos de missão, quis refletir sobre algumas das atividades realizadas e das situações vividas, e registrar umas indicações úteis para, em vários campos, trabalhar em conjunto, dialogar a partir de “mundos diversos”, reconhecer problemas e identificar soluções.

O pesquisador Mozarildo Xina Yanomami com o padre Corrado. Foto: Arquivo pessoal

Em 2021, a Hutukara Associação Yanomami e a ONG Istituto Socioambiental me convidaram para participar de um projeto de pesquisa com pesquisadores yanomami, no âmbito do programa de vigilância e proteção de seu território, cujo objetivo era identificar e documentar a perspectiva yanomami sobre a presença dos garimpos e os impactos da mineração ilegal em sua floresta e comunidades. Pensei que podia fazer desse projeto de pesquisa colaborativa o meu próprio tema de pesquisa. Dessa forma, podia combinar o trabalho junto aos pesquisadores yanomami com a participação a uma iniciativa que contribuia a enfrentar a violência sofrida pelos povos indígenas e a invasão de sua floresta, e com o estudo. Parecia-me uma oportunidade valiosa.

Meu trabalho, neste projeto de pesquisa colaborativa denominado Urihi Temi (Floresta Viva), consistiu em acompanhar e orientar seis pesquisadores indígenas em suas pesquisas junto a seus parentes. Organizamos oficinas, participamos de audiências sobre diversos crimes e encontros com indígenas e várias organizações, coletamos depoimentos na floresta e na cidade, e redigimos, organizamos e traduzimos textos que serviram para relatórios de denúncia e foram incluídos, em parte, no livro “Diários Yanomami: Testemunhos da Destruição da Floresta”, publicado em 2024. Todo esse trabalho, realizado em conjunto e em diálogo, foi o tema da minha pesquisa, que, como dizem os pesquisadores Yanomami, é uma forma de “ajudar o pensamento” e preservar a “força das palavras”, garantindo que “as palavras cheguem aos brancos” e “produzam efeitos” para defender a vida.

Livro “Diários Yanomami: Testemunhos da destruição da floresta” (2024)

Embora a linguagem possa ser um pouco acadêmica, tomo a liberdade de copiar aqui o resumo da tese, que, assim como muitos depoimentos ali registrados, também está escrito em língua Yanomae, para valorizar esta língua e permitir que falantes e leitores dela tenham acesso ao estudo e aos enunciados que o originaram:

“Este estudo propõe a análise dos processos e resultados de uma pesquisa-ação com pesquisadores da Terra Indígena Yanomami (TIY) em Roraima, sobre os impactos do garimpo ilegal em seu território. No quadro da contra-colonização dos saberes, a pesquisa visa contribuir na reflexão sobre pesquisas colaborativas como formas de coteorização que envolvem diferentes epistemologias e ontologias. A investigação segue os rastros do trabalho realizado com os pesquisadores yanomami, de suas palavras e reflexões e, por meio de uma linguagem etnograficamente informada, discute a adoção da escola, da escrita e os processos de formação escolar, em três regiões da TIY, debate a incorporação e subversão da pesquisa como forma de produzir e transmitir conhecimentos, trata da relação entre diversos saberes e conhecedores, e aborda de modo específico uma pesquisa colaborativa sobre os efeitos da exploração minerária na TIY.

Com base na experiência adquirida ao longo de anos intensos ao lado dos Yanomami, o padre Corrado compartilha o trabalho realizado. Foto: Rádio Rio Mar

No âmbito dessa investigação coletiva, pesquisa, escola e escrita aparecem como um trinômio do qual emergem categorias e objetivos dos pesquisadores, de organizações e comunidades indígenas. Agenciamentos diversos e formas de consideração surgem como cosmopolítica yanomami, bem como suas percepções sobre o território e as relações com os não indígenas, que apontam caminhos para uma indigenização da pesquisa que, como forma de “ajudar” e “fazer forte” o pensamento, atenda aos interesses dos pesquisadores e de suas comunidades.”

Sinto-me confiante de que o estudo realizado com a ajuda de muitas pessoas a quem agradeço sinceramente, sugere práticas e abordagens colaborativas que não se limitam à pesquisa científica, mas podem ser traduzidas em iniciativas pastorais, missionárias e indigenistas, uma vez que se baseiam na escuta, na troca de saberes, no diálogo e no respeito. E assim… a missão continua!

* Padre Corrado Dalmonego, IMC, missionário na Amazônia brasileira.

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