O começo humilde em Madagáscar

2 de setembro de 2020
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Padres da Consolata com algumas religiosas em Madagascar.

Por Pe. Kizito Mulakazi

A 29 de janeiro de 2019, aniversário da fundação da Congregação, os Missionários da Consolata assumiram oficialmente uma nova missão na diocese de Ambanja, em Beandrarezona. Esta missão está sob a proteção da Bem-aventurada Leonalla Sgorbati.

Durante muitos anos, Madagáscar na África, foi um país desconhecido dos Missionários da Consolata que estão sempre à procura de novas terras de missão para anunciar a mensagem do Reino de Deus aos que ainda não foram evangelizados. Até que os três missionários pioneiros, Pe. Jared Makori, Pe. Jean Tuluba e Pe. Kizito Mukalazi, lá chegara em março de 2019.

Madagáscar é um belo país com muito potencial: possui uma longa costa com a possibilidade de desenvolver a indústria pesqueira, bonitas praias que poderiam atrair o turismo, e condições climáticas favoráveis para agricultura. Apesar dos seus recursos naturais, os níveis de pobreza são elevados, com 77% da população vivendo com menos de 1,90 dólares por dia. Os jovens, que constituem a maioria da população, são os mais afetados: 80% vivem abaixo da linha da pobreza.

Fe. Jared Makori- Pe. Jean Tuluba e Pe. Kizito Mukalaz em Nairóbi antes de partir para Madagascar. Foto: Jaime C. Patias

Beandrarezona está situada na região de Sofia, na província de Mahajanga, no distrito de Bealalana, a 1.124m acima do nível do mar. A população é de 21.170 habitantes. O grupo étnico dominante nesta zona é o Tsimihety, pequenos agricultores que cultivam arroz, tabaco, amendoim, feijão e milho, e criam gado.

O distrito missionário de Beandrarezona tem apenas 716 católicos, 90% dos quais são jovens e crianças. É uma situação de missão ad gentes, lugar de primeira evangelização. São 20 aldeias distantes umas das outras. A comunidade cristã mais distante está a 70 Km de Beandrarezona, mas devido às montanhas e à falta de estradas são necessários quatro dias de caminhada para chegar

Cada comunidade tem entre 5 e 30 cristãos que não têm um lugar permanente de culto. Eles se reúnem numa casa ou constroem estruturas simples para as orações e reuniões.

A simplicidade e a humildade caracterizam o início dessa nova missão. Não havia nenhuma casa destinada aos missionários. Tivemos de alugar uma que serve de residência e escritório. Transformamos uma loja num quarto externo e o corredor serve de escritório e capela durante este tempo de pandemia. A outra ala da casa é ocupada pelo proprietário.

Começamos a nossa caminhada aprendendo o malgaxe, a língua oficial do país․ Esse idioma é peculiar. Enquanto em português, francês, inglês, italiano e swahili, a contagem começa da esquerda para a direita, em malgaxe é da direita para a esquerda. Por exemplo, 1.500 (mil e quinhentos), lê-se “quinhentos e um mil”. Leva tempo para se adaptar a este sistema.

Condições das estradas no interior de Madagascar. Foto: Kizito Mukalazi.
Primeira evangelização

As nossas atividades iniciaram com visitas às casas o que nos permitiram quebrar barreiras e criar lações de amizades e sentido de pertença. Esta atividade exige resistência e determinação para poder percorrer caminhos e estradas lamacentas, atravessar rios e locais montanhosos.

Na evangelização, existem numerosas oportunidades para fazer chegar a Palavra de Deus em todos os cantos do país. Várias regiões podem ser classificadas como lugares de primeira evangelização: missão ad gentes, uma vez que um bom número de pessoas nunca teve contato com o Evangelho de Jesus Cristo. Iniciamos a formação de líderes e catequistas. O objetivo é criar um sentido de pertença para que eles transmitam o mesmo às comunidades cristãs que vão surgindo.

Uma das capelas construidas pelas comunidades em Madagascar. Foto: Kizito Mukalazi
Culto aos antepassados

O contexto cultural e religioso é dominado pelo culto aos antepassados (mortos) que são os mediadores entre os vivos e o Ser Supremo. O elemento mais interessante é a “famahadiana”, regresso dos antepassados ou a exumação dos mortos. O povo malgaxe liga a eternidade ao túmulo ancestral e aos antepassados; por conseguinte, tanto o passado quanto o futuro encontram-se no túmulo familiar. A exumação é celebrada no esforço de louvar os antepassados.

A frequência da exumação depende de cada família. Normalmente é de cinco anos. Se o familiar falecido aparecer a um membro da família e lhe disser “estamos com frio”, significa um pedido para exumação. O astrólogo de família é consultado para determinar os melhores dias de exumação. O número de convidados e a quantidade de dinheiro a gastar é determinado pelos membros da família. No dia marcado, os membros da família alargada e os convidados vão aos túmulos dos familiares, que não estão longe das aldeias, com novos sudários e tapetes. Pelo caminho, o grupo canta e dança. No túmulo, todos circulam sete vezes à sua volta. Depois o ancião da família fala e anuncia aos antepassados a chegada de toda a família. Em seguida, os túmulos são abertos. Os ossos são exumados e colocados sobre o tapete e novos sudários (panos). Depois, os descendentes são convidados a dançar com os antepassados. As esposas/mães falecidas são levadas nas mãos e os maridos/pais falecidos são carregados no ombro.

Os antepassados são envoltos em novos sudários e levados à aldeia acompanhados de música. Eles devem ocasionalmente ver a sua aldeia e permanecer nela durante um a três dias antes de serem devolvidos à sepultura. Então, eles olham para o futuro com confiança porque sabem que receberam a bênção dos antepassados.

Desafios da missão

Os desafios nesta missão são muitos. Por exemplo a falta de infraestruturas para realizar formação, o que nos obriga a utilizar a igreja como dormitório, refeitório e sala de encontro. Não dispomos de instalações sanitárias e caixa d’água para usar chuveiros. Outro desafio são as longas distâncias percorridas a pé pelas lideranças. Faltam estradas e meios de transportes como motocicletas. A maioria dos catequistas são idosos e têm dificuldades para percorrer longas distâncias e acabam não fazendo a formação.

Temos uma unidade de saúde do governo com um pessoal médico. Esta unidade carece de um laboratório para realizar exames básicos e essenciais e não pode fornecer serviços de qualidade. O posto de saúde distrital mais próximo fica a 12 quilômetros de distância, mas não há ambulância para transportar aqueles que necessitam de cuidados especializados. Os doentes são transportados por homens fortes usando cadeiras. Muitos, especialmente as mulheres grávidas que não podem ter partos normais, não resistem.

O nível de educação é baixo e muitos jovens não frequentaram a escola ou desistiram. A educação não é uma prioridade para um bom número de pais, embora a escola seja obrigatória dos 6 aos 14 anos. Muitas crianças trabalham nas plantações de arroz, ajudam os seus pais a cuidar das vacas e em outros trabalhos. Os mais inteligentes gostariam de continuar os estudos, mas não podem pagar as mensalidades escolares e acabam por desistir. É uma experiência dolorosa por que, sem capacitar a geração jovem, Beandrarezona e a Palavra de Deus não poderão criar raízes mais profundas

Padre Kizito Mukalazi peneirando milho. Foto: Arquivo IMC.

Na região existem quatro escolas das quais duas são privadas e nenhuma de nível secundário o que não permite uma educação de qualidade. Faltam materiais escolares essenciais e a maioria das escolas não dispõem de manuais. Um livro didático é partilhado por até 50 alunos. Os exames finais são escritos à mão no quadro giz. A falta de energia elétrica representa um desafio ainda maior pois os alunos não conseguem ler ou fazer as tarefas escolares em casa. Lembrando que em Madagáscar, escurece por volta das 16 horas.

Os jovens constituem a maior parcela da população o que representa um bom terreno para iniciar a pastoral juvenil e criar as condições para a animação missionária e vocacional. Há muitas oportunidades de evangelização por meio da promoção humana nas escolas, na área da saúde, na formação de lideranças e agentes de pastoral, em especial, catequistas que estão sempre na vanguarda. Outros campos a serem trabalhados são o da justiça, paz e integridade da criação, pastoral urbana e defesa da dignidade dos pobres e excluídos.

* Pe. Kizito Mukalazi, IMC, missionário queniano em Madagáscar. Publicado pela revista The Seed, (Quênia) N. 4 julho/agosto de 2020. Tradução: Pe. Jaime C. Patias.

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