Maria de Nazaré, pedagoga cultural

3 de agosto de 2020

Jesus e seu Evangelho são luzes para iluminar o caminho da interculturação e Maria, testemunha e pedagoga para percorrê-lo.

Por Salvador Medina*

Quando as culturas se misturam, querendo manter suas identidades e tentando uma convivência intercultural, na qual possam se reconhecer, respeitar e valorizar as diferenças, recusando ou resistindo à uniformidade de uma dita cultura universal, necessitamos novas luzes e pedagogias, e da mesma forma testemunhas e mestres desta reconstrução cultural. Aqui propomos a Jesus de Nazaré e seu Evangelho como luz para iluminar o processo-caminho e Maria, sua mãe, como discípula, testemunha e pedagoga para percorrê-lo.

O ser humano, filho e pai da cultura

Cada um habita o presente de diferentes geografias como pessoa feita de terra, “terrano” (Faustino Teixeira), impelida por um passado que deve aceitar com gratidão e atraído ou ofuscado por um futuro que deve abraçar com esperança e responsabilidade, se não quiser sucumbir.

Nossa existência pessoal, da mesma forma que a de Jesus e de Maria, é permeada pela solidão (identidade) e ao mesmo tempo de companhia (relação), culturalmente tecida. Entendemos esta identidade e identificação cultural  em sintonia com o magistério da Igreja Católica em nossa “AmerIndiaAfroLatina”, apoiados no Concílio Vaticano II e na Exortação apostólica Evangelli Nuntiandi nn 18 e 20: “com a palavra cultura indicamos o modo particular como, em um determinado povo, os homens cultivam sua relação com a natureza, entre si mesmos e com Deus” (GS 53b)  de um modo que possam chegar a “um nível verdadeiro e plenamente humano” (GS 53a). É “o estilo de vida comum” (GS 53c) que caracteriza diversos povos, portanto, fala da ‘pluralidade de culturas’ (GS 53c) e não da ‘cultura’ (cfr. DP 386).

A cultura, neste caso, como estilo e projeto de vida para pessoas, povos ou grupos sociais específicos, remete sempre a essas quatro relações ou caminhos, dinâmicos e humanamente percorridos, construídos pelos humanos na interatividade e construtores, ao mesmo tempo, da mesma humanidade e toda a “comunidade de vida”. Os humanos terminam sendo, então, filhos e pais de suas culturas. Por isso não é possível diluí-las em uma pretendida cultura universal, imposta pela globalização de capitais, tecnologias e comunicações, sem sujeito nem coração. A “comunidade de vida” (CFR. Carta da Terra”) necessita das culturas para não morrer e da interculturalidade para o “bem viver” ou “Sumak Kawsay”, que em quéchua significa “a plenitude de vida em comunidade, junto com outras pessoas e com a natureza.”

Culturas tecidas por “terranos”

Pessoalmente, gosto muito da tarefa e da técnica de tecer, embora não tenha podido aprender no meu mundo cultural (Aguadas) porque era coisa de mulher. Naquele tempo ninguém falava sobre equidade de gênero. O ato de tecer, que pode ser manual ou industrial, é sempre uma tarefa delicada, artística, estética e ética, ainda mais, a arte de tecer relações vitais para a vida.

O Papa Francisco, artista das relações, nos propõe a luz do Senhor Jesus para essa missão de tecer novas relações e nós propomos Maria como uma pedagoga nesta delicada e vital missão.

Como as culturas não nascem com cada geração, mas são recriadas, para responder às exigências do presente, com base na memória ou tradição, confrontemos, então, nossas velhas relações com as novas, guiadas pela mestra de Nazaré, que nos “conduz” sempre até o seu Filho, o Mestre Jesus, também neste tempo de pandemia planetária causada pela Covid-19, que religa o pessoal, o social, o ecológico, o econômico e o espiritual.

Identidade pessoal de Maria
  1. Encontro consigo mesma: em seu processo de vida, a “Agraciada”, a “encantadora”, permanece sozinha, em sua intimidade, não como o “centro do universo”, mas na presença (companhia) de si mesma, em sua identidade pessoal e cultural de mulher judia, em honesta relação afetiva com José.  (Lc. 1,26-38)

“É bom estar sozinho, mas acompanhado de nossos antepassados, familiares e amigos, que nos cuidam e nos dão fortaleza”, me disse Maurício Julicue, jovem indígena Páez ou Nasa.

Atitudes de Maria na vida pessoal

Atenção: podemos chamar também meditação ou oração. Maria é uma jovem que reza e cala sua mente para dar espaço à consciência, à espiritualidade. Mesmo confusa, escuta com atenção a mensagem do alto (vontade de Deus).

Fé: Maria é pessoa de fé que, confiando plenamente no Deus dos seus pais, não se fecha na tradição do seu povo, mas se abre para a proposta de uma nova criação, uma nova aliança, uma nova humanidade: fé, confiança, fiabilidade (confiabilidade) = felicidade. “Meu Espírito se alegra em Deus meu Salvador, porque ele pôs os seus olhos na humildade de sua escrava. Por isto desde agora todas as gerações me chamarão Bem-aventurada. (Lc 1, 47-48)

Aceitação: Abrir espaço para a vontade de Deus, em vez de resistir ou discutir. Maria aceita no coração de jovem e humilde mulher de Nazaré, sua incapacidade de compreender o mistério apresentado pelo mensageiro divino e se rende disponível (não resignada) diante da nova ação de Deus nela.

Coragem: Maria não se assusta diante do novo, mesmo que este permaneça oculto no mistério e seja revelado pouco a pouco. Expressa seus questionamentos, deixando aparecer suas perplexidades, mas se disponibiliza, sem medos, a viver o plano de Deus.

Memória: silenciosa e meditativa, Maria, para Lucas, é a mulher da memória. “Maria guardava todas estas coisas meditando-as em seu coração” (Lc 2,19), “E sua mãe conservava todas estas coisas em seu coração” (Lc 2,51b).

Este é o “ caminho para dentro”, pessoalmente percorrido por cada um de nós, entrando na intimidade para se autoconhecer melhor: trata-se da própria identidade manifestada culturalmente, na qual se assume a verdade, com uma liberdade autônoma, para poder entrar no dinamismo da relação.

Identidade Religiosa de Maria
  • Encontro com o outro: Permanece sozinha, mas com..,  na presença (companhia) do Deus de seus antepassados (o Outro com maiúscula,  transcendente) atenta, humilde, crente, aberta à vocação, disposta para a missão, feliz: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo… bendita és tu que acreditaste”. (Lc 1,28.45)
Atitudes de Maria na vida espiritual

Alegria: o convite que chega do alto é claro, “Alegrai-vos” Isabel a chama de “feliz”, Bem-aventurada “Bendita tu que acreditaste, ela mesmo canta sua alegria, minha alma engrandece o Senhor, e meu espírito se regozija em Deus meu salvador. “(Lc. 1,46-47)

Humildade: tudo nela sucede pela vontade e pelo poder do criador, que vê sua pequenez e faz dela e através dela, obras grandes e novas.

Este é o “caminho para a transcendência”, para o mistério que vai se revelando na história: para viver esta dimensão religiosa e espiritual de nossa identidade relacional, no dia a dia, e em cada contexto, necessitamos ser treinados na obediência, entendida como disponibilidade para escutar a vontade de Deus, nos escutar entre nós mesmos e discernir (dis=separar + cernir = selecionar com o coador) pessoal e comunitariamente, com atitude de fé orante e confiança dialogante em cada uma das decisões importantes da vida.

Identidade social de Maria
  • Encontro com os “outros/as: permanece sozinha, mas com.., na presença (companhia) dos outros (diferentes e iguais), pronta para sair ao encontro de: a) pessoas individuais que buscam gerar vida em meio às dificuldades: “naqueles dias Maria se levantou e colocou-se em viagem até a montanha… entrando na casa de… permaneceu com ela durante três meses…”  (Lc 1,39); b) famílias ou grupos em festa: “houve umas bodas em Caná da Galileia e estava a mãe de Jesus…” c) pessoas, comunidades ou povos martirizados, crucificados, vítimas de diferentes violências: “estavam junto a cruz de Jesus sua mãe… (Jn 19, 25); d) comunidades de fé, atemorizadas diante dos perigos das perseguições religiosas: “regressaram a Jerusalém… estavam Pedro… Junto com… Maria, a mãe de Jesus…”. (Atos 1,12-14)
Atitudes de Maria na vida social

Missionária: disponível para sair e ir, depressa (entusiasmo) até (ad) os outros/as. Servidora: atenta e firme, “de pé”.

Pedagoga: mostrando Jesus, orientando, “fazei tudo o que Ele lhes disser” e acompanhando com carinho e firmeza.

Este é o “caminho para os outros/as”, até a sociedade, saindo do próprio mundo e viajando ao mundo dos outros, com espírito e dinamismo missionário. Para viver esta dimensão social, política e jurídica de nossa identidade relacional, no dia a dia e em cada contexto, nos apoiarmos na maturidade afetiva e sexual, entendida como: a) disponibilidade para sair de nós mesmos e ir ao encontro dos outros ou deixar que nos encontrem; b) disposição para revisar permanentemente nossas dinâmicas afetivas e a liberdade para permanecer no amor, para criar amizade social e fraternidade familiar.

Identidade “terrana” de Maria
  • Encontro com o mundo-ambiente: Maria, mulher da terra e “terrana”, porque humana, nós cristãos a identificamos com aquela Mulher “vestida de sol”, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de 12 estrelas sobre a cabeça”, que no capítulo 12 do Apocalipse é apresentada como “sina” do povo de Deus que, confiando na providência divina, sofre e padece as dores de parto de cada dia, na dura tarefa de dar à luz um mundo em que amor possa reinar. Percebemos em Ameríndia a dimensão feminina da divindade e a identificamos com a Pachamama, expressão aymara e quéchua da força vivificante de Deus mãe, que cuida dos seus filhos e sofre quando é maltratada e explorada. Ela é venerada como a Virgem do Cerro, em Potosí-Bolívia, como a Moreninha do Tepeyac mexicano, Virgem de Guadalupe que visitou a Pátria Grande Latino-americana, com o Sol da ConSOLacão no seu ventre. Por que tendes medo, acaso não estou aqui, eu que sou sua Mãe”?  (Nican Mopohua).
Atitudes para habitar juntos a “casa comum”

Não basta cuidar do planeta por interesse, por motivos econômicos ou porque a humanidade está ameaçada e queremos evitar a catástrofe que, de acordo com muitos indícios, se aproxima. Devemos viver na consciência (não na mente) de rede, para isto necessitamos repensar e mudar nossos estilos de vida, nossa mentalidade, e inclusive, nossa espiritualidade. Nova compreensão da vocação e da missão do ser humano, e ainda mais, do discípulo missionário. Deixemo-nos ser “convoca-dos” e “provo-cados”.

Este é o “ caminho até o meio ambiente”, de ecologia integral: para viver esta dimensão ecológica, econômica e laboral de nossa identidade relacionada, no dia a dia e em cada contexto, nos apoiarmos no direito-dever ao trabalho e nas atitudes de “cuidado” de toda a criação, investindo os “dons” que Deus Pai nos oferta permanentemente através da “mãe terra”, administrando-os com ética e de forma transparente, usando o dinheiro com liberdade austera e para solidariedade com os mais pobres e necessitados.

* Salvador Medina, imc, é missionário na Colômbia.

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