A espiritualidade do “mais” de José Allamano

“Magis” é uma palavra latina que significa mais ou maior. É encontrada na frase latina associada aos Missionários da Consolata “ad maiorem Dei gloriam”, que significa: para a maior glória de Deus. “Magis” descreve aquele que faz mais por Cristo ou faz mais pelos outros. Ela indica a aspiração ou inspiração ligada à formação de uma espiritualidade centrada em Jesus Cristo.

Por Charles Orero *

Definido em termos mais simples, “magis” descreve a excelência ou qualidade de uma empresa: não há escola ou empresa no mundo que não reivindique excelência na descrição de sua missão. “Magis” nos lembra constantemente que todas as decisões que tomamos, por mais pessoais ou privadas que pareçam à primeira vista, têm amplas implicações para a vida da comunidade e, portanto, o bem comum é um valor que deve ser sempre levado em conta.

Neste contexto, uma espiritualidade guiada pelo “magis” é aquela que busca mais, qualidade e excelência: aquela que não está satisfeita com o mínimo indispensável, mas está inclinada a buscar algo maior. Nos escritos do Bem-aventurado José Allamano, este “magis” pode ser visto de diferentes maneiras:

1. É a espiritualidade que busca qualidade e excelência para a maior glória de Deus e para o serviço à humanidade. Ele recorda disso claramente quando fala daqueles missionários que respondem à vocação com pouca generosidade e sem esforços; em sua espiritualidade não há espaço para o mínimo indispensável.

2. Também o vemos quando, de forma ativa, ele nos convida a tirar proveito das circunstâncias. Para Allamano não é uma questão de esperar por oportunidades de ouro, mas de encontrar o ouro nas oportunidades que temos em mãos.

Esta busca pela excelência, este fazer mais, esta espiritualidade, este “magis”, Allamano queria ver na vida do Instituto e na vida de seus missionários.

Na vida do Instituto

Por ocasião do 10º aniversário da fundação do Instituto (24 de abril de 1910), José Allamano disse que “esta comunidade havia sido fundada não para ele, mas ad maiorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus”. Tudo o que o Instituto fez no passado, tudo o que faz no presente e tudo o que fará no futuro, é para a maior glória de Deus que se manifesta em sua missão e em seu serviço à humanidade.

Assim, todas as atividades e todos os instrumentos de promoção humana escolhidos para a evangelização dos não cristãos têm a ver com isso: os empreendimentos, as obras, as oficinas industriais, as escolas, as visitas domiciliares, os orfanatos, as faculdades e a assistência médica, a promoção humana… tudo isso revela, ainda mais, a meticulosa busca pela qualidade do trabalho. Isto também foi reconhecido pelo Cardeal Van Rossum, Prefeito de Propaganda Fide, que em uma reunião com o Padre Allamano lhe agradeceu por todo o bom trabalho que o Instituto estava fazendo, enfatizando que “isso que vocês estão fazendo vai além do que se deve fazer, não se é obrigado a fazer tudo isso”. Em resposta, Allamano acrescentou: “só cumprimos nosso dever; não se deve ser padre se não se sente zelo pelas almas”. Aqui é evidente o “magis” que o Instituto recebeu do Fundador como uma herança.

Na vida do missionário

Assim vemos a espiritualidade de Allamano guiada por “magis” também na vida de cada missionário. Para Allamano, o missionário é o homem do mais, ele deve exagerar, ele não pode contentar-se com o mínimo indispensável: tudo deve ser bem feito, o bem deve ser bem feito.

Na resposta à própria vocação o “magis” está muito presente: não basta ser chamado, não basta responder ao chamado, não basta entrar no Instituto e não basta sequer ir às missões. Todas estas coisas têm significado se elas contêm uma resposta plena, generosa e constante à graça de Deus.

O “magis” reaparece no trabalho, na oração e na caridade. O trabalho deve ser feito com espírito de generosidade; “os missionários – disse ele – são generosos e podem trabalhar por muitos”. E em oração um missionário não pode orar demais: “Eu lhe digo, você nunca pode orar demais”.

Bem-aventurado Allamano com os quatro primeiros missionários enviados ao Quênia.

Na caridade ele desejava em cada comunidade não uma simples caridade, mas uma caridade sempre atenta ao outro, uma caridade que carrega tudo, uma caridade capaz de amar segundo a medida de Deus. “Nosso coração, disse ele, é tão pequeno que não podemos dividi-lo entre Deus e as criaturas”. Deus quer todo o nosso coração e, portanto, devemos amar com todo o nosso coração, com toda a nossa alma, com toda a nossa mente, com toda a nossa força.

Portanto, com a espiritualidade do “magis” e infundindo um espírito de generosidade e constância, Allamano ajudou cada missionário a responder bem à sua vocação, a amar e servir a Deus com zelo, a colocar-se generosamente a serviço de Deus e do próximo, e a revitalizar-se a si mesmo.

São Paulo exorta seus cristãos a viver uma vida cheia de amor, seguindo o exemplo de Cristo que “nos amou e se entregou por nós, oferecendo-se a Deus como sacrifício de agradável odor” (Ef 5,2) e lembra-lhes que esta vida nos transforma em embaixadores de Cristo porque “por nosso intermédio é o próprio Deus que exorta” (2 Cor 5,20). É precisamente a espiritualidade do mais que nos permite ser apóstolos zelosos, verdadeiros embaixadores de Cristo.

* Padre Charles Orero, IMC, é queniano e estuda espiritualidade na Gregoriana em Roma.

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