Na diocese de Tete em Moçambique, a Igreja trabalha para reconstruir vidas

Na diocese de Tete, há 100 anos, chegaram a Moçambique os primeiros missionários da Consolata enviados por Allamano. Foto: Diocese de Tete.

Dom Diamantino Antunes, IMC, há sete anos é bispo de Tete (Moçambique), uma diocese com 101 mil Km2 – maior do que Portugal continental e ilhas. O missionário da Consolata português trabalha em prol da evangelização e para que cresçam respostas capazes de devolver esperança àquele povo.

Por Juliana Batista *

Com uma população maioritariamente jovem, Moçambique enfrenta um grande desafio: a falta de oportunidades para quem procura construir um futuro. É uma realidade que preocupa profundamente dom Diamantino Antunes. “Para mim, o maior desafio – e o que mais me preocupa – é que a população é muito jovem: mais de metade tem menos de 18 anos e está escolarizada, mas não há perspetivas, não há trabalho e as oportunidades são muito poucas”, lamentou o bispo, em declarações à revista Fátima Missionária.

Eucaristia à sombra de cajueiros em Guiúa, província de Inhambane. Foto: DR

À falta de horizontes soma-se a “corrupção e a falta de um projeto da nação”. Para o bispo de 59 anos natural de Albergaria dos Doze, Leiria, “Moçambique está a ser penalizado por uma elite que pensa só em si e que não pensa no bem comum.” Segundo o bispo, que acumula 29 anos de trabalho missionário em Moçambique, “há muito individualismo” e o país enfrenta uma “grande crise económica devido a erros e à acumulação da riqueza em poucos, deixando muita gente sem o essencial”.

A educação é outro setor crítico. “Houve esforço de expansão, mas a qualidade é muito baixa. Os alunos avançam sem conhecimentos mínimos e há turmas com 70 ou 80 estudantes, muitas vezes em condições de precariedade.” Quando chegou ao país, em 1992, para realizar o estágio pastoral, existia apenas uma universidade; hoje há 60, “mas de uma qualidade muito duvidosa”. O acesso ao emprego, acrescenta, “muitas vezes não depende das capacidades, mas da corrupção e favoritismo”.

Visita pastoral à paróquia de Matambo-Wiriyamu, Diocese de Tete. Foto: Diocese de Tete

Para Dom Doamantino que foi ordenado sacerdote aos 27 anos, no Santuário de Fátima, “o país é rico; o problema é a distribuição da riqueza”. “Há muita injustiça e, também, assimetrias regionais preocupantes: as zonas mais ricas de recursos naturais são, paradoxalmente, aquelas onde o desenvolvimento humano é mais baixo e a pobreza mais acentuada.”

Uma das respostas mais significativas da diocese tem sido a implantação da “Fazenda da Esperança”, uma comunidade terapêutica católica fundada no Brasil há 35 anos, dedicada à recuperação de pessoas com dependência de drogas e álcool. A primeira unidade, masculina, abriu em 2020 em Zobué, num antigo seminário reabilitado; a segunda, feminina, foi inaugurada em 2023, na missão de Boroma. A recuperação baseia‑se em oração, trabalho e vida comunitária. “Não há medicamentos. Há família, escuta e a descoberta de um sentido que nunca tiveram.”

Exercícios espirituais do clero da diocese de Tete com seu bispo, dom Diamantino.

As fazendas incluem ainda escolinhas pré‑escolares e, em Zobué, está a nascer uma escola primária que evoluirá até ao ensino secundário. O projeto ganhou força graças ao apoio de um empresário que, depois de ver um sobrinho toxicodependente recuperado no Brasil, decidiu financiar a expansão da iniciativa em Tete. O impacto é visível: pais analfabetos, que falam um dialeto e não conhecem a língua portuguesa, fazem questão de levar os filhos à escola, e muitas crianças acabam por ensinar português às próprias mães.

A formação dos alunos pretende-se que seja integral. O bispo de Tete recorda com humor o caso de um aluno que encontrou um ovo posto por uma galinha das irmãs da comunidade Sementes do Verbo – responsáveis pelo ensino na missão de Boroma – e fez questão de o devolver, sendo depois distinguido com o “Prêmio da honestidade”. Além da educação e da reabilitação, as fazendas desenvolvem projetos agrícolas, como um silo comunitário que permite conservar o milho e vendê‑lo a preços mais justos, evitando que as famílias sejam obrigadas a desfazer‑se da colheita logo após a produção.

Visita pastoral à paróquia de San Marco di Luia. Foto: Diocese de Tete

Além do contributo dado nos setores da educação e da saúde, a diocese de Tete – onde há 100 anos chegaram os primeiros Missionários da Consolata enviados por São José Allamano para Moçambique – está empenhada em consolidar a presença da Igreja Católica em todo o território diocesano através da abertura de novas paróquias, “dotando-as de missionários e das infraestruturas indispensáveis”. O prelado sublinha que há “grande empenho” na “formação do clero diocesano e dos agentes pastorais, nomeadamente catequistas”.

* Juliana Batista é jornalista da Revista Fátima Missionária.

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