Vocação e a liberdade do chamado

3 de julho de 2020
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Encontro de vocacionados da Consolata, México. Foto: Arquivo

Quando Deus nos chama, espera o nosso sim, porque já tem uma proposta para nós

Por Joseph Onyango Oiye

No Catecismo da Igreja Católica (1730), “Deus criou o homem racional, conferindo-lhe a dignidade de uma pessoa dotada de iniciativa e domínio de seus atos. Deus queria deixar o homem nas mãos de sua própria decisão, para que ele pudesse buscar seu Criador sem coerção e, aderindo a Ele, alcançasse livremente a perfeição plena e feliz”.

Podemos, portanto, dizer que Deus criou o homem e lhe deu a liberdade de escolha, e assim é com seu chamado à uma vocação. Deus nos chama, mas não nos obriga a responder. O vocacionado  neste caso tem duas opções: dizer “sim” ou “não”. O nosso fundador, o Bem-aventurado José Allamano, dizia: “Deus me chama hoje, não sei se me chamará amanhã”. A vocação como um chamado de Deus implica um discernimento para saber se é realmente Deus quem chama ou é apenas imaginação pessoal.

O ser humano pode ouvir várias vozes; de várias pessoas e de vários lados. O processo de discernimento visa ajudar o indivíduo, a saber: quem está me chamando e para que me chama; se posso ou não responder o chamado. A vocação para a vida consagrada é um chamado de Deus; nosso criador, o onisciente, aquele que nos conhece desde o ventre materno. Quando Deus chama, é porque Ele conhece o indivíduo, suas capacidades e limitações. Portanto, Ele escolhe segundo o Seu critério, no entanto, respeitando a liberdade do indivíduo de aceitar ou não seu chamado.

É comum ouvir os jovens perguntando: “Como posso saber se é Deus que está me chamando para a vida consagrada?” Isso é algo que somente o indivíduo pode saber, pois ninguém pode discernir no lugar do outro. O mais essencial é manter contato com Deus: oração, atividades religiosas, meditações e direção espiritual. Quanto mais tempo passamos com Deus, mais ouvimos Sua voz e propósitos para nós.

Profissão religiosa no Noviciado dos Missionários da Consolata, Tanzânia. Foto: Arquivo

Quando Deus nos chama, espera o nosso sim, porque já tem uma proposta para nós. Isso não implica que o indivíduo seja obrigado a responder, devendo sempre ser livre e consciente. Os Evangelhos nos apresentam o diálogo entre a Virgem Maria e o anjo Gabriel, um diálogo que podemos chamar de “processo vocacional”. Nesse momento, ouvimos da Virgem (Lucas 1, 34): “Como posso saber … se ainda sou …? No final deste diálogo, a Virgem Maria reconhece o convite de Deus e responde “sim”. Cada vocacionado passa por um processo igual, um processo saudável e significativo. O mais importante é ter a atitude de Maria e dizer: “Eis a serva do Senhor … que  seja feita em mim segundo a sua vontade”. Maria como um ser humano era livre para negar ou aceitar o chamado de Deus, mas ela escolheu dizer sim, o sim que mudou a história da salvação.

O discernimento antes de seguir a Cristo de maneira radical e consagrada deve ser programado dentro de um período de tempo. Não se pode ouvir sempre a voz de Deus e permanecer a vida inteira sem dar resposta, porque Deus pode chamar você hoje, mas amanhã poderá haver alguns fatores que o impeçam de dizer sim. A pessoa pode dizer: “Agora me sinto pronto para me consagrar como religioso, mas não tenho mais condições ou fatores para viver a consagração”.

A vocação é então igual a um pai de família que chama um de seus filhos para algo específico; mesmo que o filho ouça, ele tem duas opções: responder ao pai ou permanecer calado. O pai insistirá por um momento, mas pode ser tarde demais para cumprir o mandato. O Pai te chama hoje, não sabes se ele te chamará amanhã.

* Joseph Onyango Oiye, imc, é animador missionário e vocacional da delegação Norte-America.

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