A teologia do Coração de Jesus

24 de junho de 2022

O coração é símbolo da totalidade e profundidade do ser humano. Contém o germe da vida e da missão. O Coração de Jesus é a plena revelação do mistério de Deus que continuamente se inclina compassivo e misericordioso sobre a humanidade.

A vida e a missão de Jesus de Nazaré, a partir de seu Coração, foram pautadas pela compaixão e misericórdia, especialmente com os pobres e necessitados.

Na dinâmica do coração, o voltar-se para o outro é uma atitude originária. Implica em sentir com o outro, interiorizar seus sofrimentos. É poder entrar no coração, nos sentimentos e no íntimo de quem sofre e deixar-se tocar pela dor, sendo capaz de escutar as palavras não pronunciadas verbalmente e como Jesus, oferecer ajuda, seja de qualquer espécie. Quem está comovido com o outro é incapaz de aumentar seu sofrimento, portanto, não agride.

A pessoa misericordiosa ama e seu amor se traduz em atos que buscam recuperar a vida e a dignidade. Deixar-se sensibilizar por quem está ferido, modifica a própria pessoa que experimenta este gesto como fidelidade a si mesma. A solidariedade humana adquire uma dimensão ainda mais profunda numa perspectiva de fé. Vemos então, o sofrimento com os olhos de Deus e nos compadecemos com o coração de Deus que mergulha na vida do ser humano para que o ser humano possa mergulhar na vida de Deus. É humanização mútua. Deus se fez humano para que o ser humano se divinize e, somente se diviniza o que é profundamente humano. Solidariedade é, pois, uma nova forma de relacionar-se. Implica numa atitude humanitária continuada e comprometida.

Perspectiva bíblica

Jesus viveu uma prática humano-libertadora, valorizando as pessoas, recuperando a dignidade, devolvendo-lhes a vida e, Ele mesmo, deu sua vida como obra máxima de seu ser e de seu agir, porque no núcleo de seu Coração estava o amor. O amor humano e divino de Jesus, que deu a vida por amor à humanidade a ponto de ser transpassado seu Coração, continuam sendo uma resposta e uma proposta para o tempo de hoje. A pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que eu sou”? continua a interpelar os “devotos do Sagrado Coração”, a penetrar mais profundamente no mistério humano e divino de Jesus e para responder a essa pergunta é preciso escutar de novo o convite do Senhor: “Vinde a mim (…) porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28).

Trajetória histórica

A espiritualidade do Coração de Jesus alimentou a fé de muitos cristãos em seus séculos de história. É a plena revelação do mistério de Deus que se inclinou sobre a humanidade. A devoção ao Coração de Jesus, por ser uma devoção diferente de todas as outras existentes, marcou a vida da Igreja e do mundo. De origem francesa, propagou-se pelo mundo inteiro, buscando responder aos clamores da época e muitas foram as lutas que se travaram a partir dessa “nova” devoção.

No período do Brasil colonial, antes da chegada da devoção ao Coração de Jesus já havia, entre o povo brasileiro, a devoção ao Senhor Bom Jesus com seus traços marcantes que respondiam à realidade de vida e de fé dos que aproximavam seus sofrimentos aos sofrimentos de Jesus. Com a chegada dos missionários europeus, essa devoção popular foi sendo substituída, aos poucos, por uma devoção mais controlada pela Igreja por meio de atos de reparação dos pecados cometidos.

A prática da misericórdia

Hoje, um novo olhar teológico para o Coração transpassado de Jesus nos remete ao coração do mundo. Ali estão os transpassados da história, que por sua vez apontam para o crucificado. Se a devoção perder a vinculação com a história, correrá o sério risco de tornar-se alienada e alienante. A grande questão está na prática da compaixão e da misericórdia. Viver hoje a misericórdia é viver segundo a opção fundamental do ser cristão. As pessoas sofridas clamam não só por compaixão, mas por misericórdia. Sentir a dor do outro é o primeiro passo para uma ação solidária, mas o segundo é a concretização da prática misericordiosa. A solidariedade implica numa atitude humanitária continuada e compromissada, coerente com o seguimento de Jesus de Nazaré.

A Teologia do Coração como revelação da encarnação de Deus no mundo, quer recuperar a dignidade do ser humano como obra prima de Deus. Frente ao sofrimento no mundo, a solidariedade, a compaixão e a misericórdia, traduzidas em ação, tornam-se gesto de caridade que revelam o amor de Deus para com o ser humano. Não é possível permitir que vidas humanas desfaleçam por falta de atitudes solidárias e misericordiosas. A solidariedade, a caridade, a partilha, a compaixão, a sensibilidade, que fazem das pessoas serem mais humanos, são formas que possibilitam a construção de uma sociedade, não mais baseada na lei do mais forte, do mercado, do lucro, mas a partir da dignidade e da grandeza do ser humano por revelar o Coração de Deus. Por isso somos, como cristãos, portadores da imagem de Deus, ícones de seu amor infinitamente misericordioso, mas o seremos, de fato, na medida em que nos transformarmos interiormente segundo o espírito de Deus. Expressão típica da misericórdia é o amor como caridade-em-ação perante o sofrimento. Este processo para uma prática misericordiosa começa pelo ver e ouvir e prossegue pelo sentir com o coração que impele para a ação.

Na V Conferência dos Bispos em Aparecida foi reassumida a opção pelos pobres e excluídos e os Bispos assim se manifestaram: “Comprometemo-nos a trabalhar para que a nossa Igreja Latino-americana e Caribenha continue sendo, com maior afinco, companheira de caminho de nossos irmãos mais pobres, inclusive até o martírio (…). A Igreja latino-americana é chamada a ser sacramento de amor, solidariedade e justiça entre nossos povos” (DA n. 396).

Portanto, a Teologia do Coração de Jesus continua sendo uma proposta relevante para os dias atuais, pois, aponta caminhos para uma releitura da simbologia do coração como revelador da encarnação de Deus no mundo.

Fonte: Elo Diocesano, Diocese de Santo Ângelo, Rio Grande do Sul (junho 2022, pp.8-9)