Por que grita a minha gente?

7 de setembro de 2020
Cartaz oficial do 26º Grito dos (as) Excluídos (as)

“Vida em primeiro lugar”. “Basta de Miséria, Preconceito e Repressão! Queremos Trabalho, Terra, Teto e Participação!”

Por Alfredo J. Gonçalves *

Por que trabalha, sofre e luta a minha gente?
Por que geme, chora e se organiza a minha gente?
Por que canta e dança, luta e festeja a minha gente?
Por que minha gente insiste em viver e não apenas sobreviver?
Por que se levanta e grita a minha gente no dia 7 de setembro?

A minha gente grita porque é vítima de exclusão social,
A minha gente grita porque quer ser protagonista do tempo,
A minha gente grita porque precisa se fazer ver e ouvir,
A minha gente grita, na pandemia, pelas janelas e varandas de suas casas,
A minha gente grita, desde sempre, pela vida em primeiro lugar,
A minha gente grita no Dia da Pátria porque jamais esqueceu a cidadania!

A minha gente grita contra a pobreza, a miséria e a fome,
A minha gente grita contra o racismo, o preconceito e a discriminação,
A minha gente grita com a repressão, a exploração e o autoritarismo,
A minha gente grita contra todo tipo de tirania, ditadura e império,
A minha gente grita contra os atentados ao processo democrático!

A minha gente grita pela dignidade, a justiça e os direitos no trabalho,
A minha gente grita pela terra onde possa plantar, colher e se alimentar,
A minha gente grita pela terra onde erguer um teto para proteger a família,
A minha gente grita pela defesa do ar, das águas, do meio ambiente e da Terra,
A minha gente grita para deixar a arquibancada da história e entrar em campo,
A minha gente grita para ter vez e voz na participação da utopia do Reino!

A minha gente grita em solidariedade os infectados e afetados pela pandemia,
A minha gente grita pelos milhões de mortos e pelas famílias enlutadas,
A minha gente grita na voz das mulheres sujeitas à violência doméstica.
A minha gente grita na voz dos negros que há séculos “estão privados de respirar”,
A minha gente grita na voz dos povos indígenas e das comunidades quilombolas,
A minha gente grita na voz dos migrantes, das crianças e do povo de rua,
A minha gente grita na voz de todas as minorias “invisíveis e descartáveis”!

A minha gente grita do fundo dos porões abandonados e esquecidos,
A minha gente grita a partir dos longínquos grotões onde impera o descaso,
A minha gente grita desde as periferias relegadas a uma cidadania de segunda classe,
A minha gente grita no campo e na cidade por saúde, educação, luz e paz;
A minha gente grita aos céus e aos deuses pela unidade de todos os povos,
A minha gente grita pela construção conjunta de “nossa casa comum”!

A minha gente grita por um sistema econômico onde a vida tenha primazia sobre o lucro,
Onde a produção e a produtividade importem menos que a distribuição dos frutos,
Onde idosos e crianças representem nossa memória viva e nosso futuro solidário,
Onde todos, homens e mulheres, possam fazer parte do grande mutirão pela vida,
Onde a terra, o teto e o trabalho sejam direitos sagrados e assegurados!

* Pe. Alfredo J. Gonçalves, cs, vice-presidente do Serviço Pastoral dos Migrantes.