Pela vossa Santa Cruz remistes o mundo

Cruz do 13º Intereclesial das CEBs em Crato (CE), janeiro de 2014. Fotos: Jaime C. Patias

Abandonado por todos, no alto da cruz, Jesus grita: “‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ E dando um forte brado, Jesus expirou” (Mc 15, 34-37). O Filho de Deus encarnado, foi torturado e morreu assassinado sob a forma mais humilhante da época: a crucificação.

por Jaime C. Patias *

Em meio a uma terrível pandemia, hoje, a maior parte da humanidade vive crucificada pelo sofrimento, pela dor, o medo, a violência, pela miséria, pela fome e escassez de água e pela falta de condições para uma vida digna. Crucificada está também, a Mãe Terra, explorada e maltratada por um sistema predatório que a fez perder o seu equilíbrio interno provocando aquecimento global .

Olhando para a Santa Cruz vemos o próprio Cristo presente em todos os crucificados e crucificadas da humanidade. Reconhecemos Cristo no “grito da Terra e no grito dos pobres”.

“Ele, que era de condição divina, não Se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-Se ainda mais, obedecendo até a morte, e morte de cruz” (Filip 2, 6-8).

Em Cristo Jesus, Deus Criador entrou na história da humanidade e humilhou-se a si mesmo obedecendo até a morte. O crucificado definiu sua crucificação como solidariedade para com todos os crucificados da história que foram e serão vítimas da violência, do ódio, da humilhação, do desprezo, da discriminação…

Hoje somos chamados a assumir essa mesma missão. É Ele quem nos convida. “Quem quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24).

Nesse sentido, gostaria de destacar três cruzes peitorais carregadas de significado que nos questionam e, ao mesmo tempo, ajudam a entender os crucificados de hoje. As fotos foram feitas durante o Sínodo para a Amazônia em Roma, outubro de 2019 (Fotos: Jaime C. Patias).

1. Cruz de madeira com anel de tucum (símbolo da opção pelos empobrecidos). Ela é usada por Dom Adriano Ciocca Vasino, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), terra de missão de Dom Pedro Casaldáliga, “Evangelho Vivo”, despojado de todo e qualquer sinal de poder, como seguidor de Jesus de Nazaré, foi radicalmente humano, anunciou a Boa Notícia do Reino de Deus aos pobres.

2. Cruz confeccionada com fibra de tucum (palmeira amazônica) pelo padre João Sucarrats, salesiano, falecido em junho de 2018 em Santa Isabel do Rio Negro, Amazonas. Essa cruz é usada por Dom Mário Antônio da Silva, bispo de Roraima, terra de resistência dos povos indígenas, os guardiões da Pan-Amazônia. Ela nos lembra que “a causa indígena é de todos nós”.

3. Cruz de madeira com um prego cravado, oriunda de um barco usado por migrantes para atravessar o Mediterrâneo, rumo a Lampedusa no sul da Itália. É usada pelo cardeal Michael Czerny, subsecretário da Seção de Migrantes e Refugiados do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral. A cruz nos lembra do apelo do Papa Francisco: “Acolher, Proteger, Promover e Integrar” os migrantes e refugiados.

O lenho, a folha e o anel feito de tucum, juntamente com o prego (cravo) e a madeira do barco, recordam a opção pelos pobres crucificados da humanidade. São símbolos que nos conectam com a missão de Jesus misericordioso, o Crucificado Ressuscitado na vida do povo e que renova a esperança na realização do Reino de justiça, de irmandade, de compaixão e de amor.

“Por isso, Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem, no céu, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai” (Filip 2, 9-11).

Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, e vos bendizemos porque pela vossa santa cruz remistes o mundo.

* Jaime C. Patias, IMC, Conselheiro Geral para América. Dia 14 setembro 2020, Festa da Exaltação da Santa Cruz.

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