Mãe Aparecida: nas lutas de cada dia, defende a nossa vida!

12 de outubro de 2020

Esta devoção passou a ser para nós brasileiros e brasileiras, um gesto simbólico! Ela une, anima e alimenta a nossa utopia. Por ter sido encontrada nas águas do rio, não poderia levar outro nome: Maria Aparecida. Para sermos fiéis ao nome de tantos e tantas: Maria Aparecida de Jesus.

Por Edegard Silva Júnior *

Desde a Sede da Diocese de Pemba em Moçambique, na África, enxergamos o bonito azul do Oceano Índico. Foi também do porto deste país, que partiram para a América, os navios negreiros, com o povo de tantas tribos e aldeias. Nesta triste e pecaminosa travessia, já não ia um “povo” mas “peças” a serem negociadas no mercado, na condição de escravos. Muitas destas pessoas desembarcaram no Brasil…

Enfrentamos o genocídio indígena. Eram mais de 4 milhões que viram suas terras tomadas. Muitos foram assassinados e outros, para não morrerem nas mãos dos algozes, se suicidavam.

Arrancados da África, entre 4 a 5 milhões, chegaram ao Brasil, para servirem nos engenhos ou nas cidades, como escravos.
A história do Povo de Deus assegura que a Mãe de Jesus, conhecia os acontecimentos do Antigo Testamento. Em Nazaré na Palestina, Maria Mãe de Jesus, ouvia na comunidade, o texto do Êxodo capítulo 3: “eu vi a opressão que sofre o povo, tenho escutado o clamor e desci para libertá-los e tirá-los daqui”…

É neste cenário de opressão que no Brasil, em 1717, a Mãe de Jesus aparece nas águas do rio Paraíba. Cabeça sem corpo. Corpo sem cabeça. Destroçada como tantas pessoas que ousavam sonhar com a terra sem males. Para um sistema com um aparato opressivo tão grande, quem sabe para alguns, deveria surgir um símbolo grandioso e forte, tipo aquele “messias” que muitos esperavam no tempo de Jesus.

O encontro da imagem de N. S. Aparecida.

Diz o Apóstolo Paulo na Carta aos Coríntios: “Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir os fortes” … Assim Deus faz “aparecer” das águas do rio Paraíba, uma imagem pequenina e preta. Cabeça separada do corpo.

O Corpo é uma totalidade. Não podemos separar “corpo e alma” ou “matéria e espírito”. Creio que a pequena imagem encontrada pelos pobres pescadores, seja um sinal a ensinar que para vencer as estratégias do mal e as armadilhas do opressor é preciso estarmos integrados e unidos. Cabeça, pensamento, projetos…

O gesto dos pescadores de juntarem as duas partes do corpo, inspira-nos a não estarmos separados, fragmentados, “dicotomizados” e divididos. Podemos ter pensamentos e projetos diferentes, mas todos devemos olhar sempre na mesma direção.

Oração do papa Francisco a N. S. Aparecida

Esta devoção passou a ser para nós brasileiros e brasileiras, um gesto simbólico! Ela une, anima e alimenta a nossa utopia. Por ter sido encontrada nas águas do rio, não poderia levar outro nome: Maria Aparecida. Para sermos fiéis ao nome de tantos brasileiros: Maria Aparecida de Jesus.

As ciências humanas, entre elas a teologia, tem ensinado a importância de respeitar e valorizar a dimensão pessoal, evitando ações individualistas e intimistas. A tradição bíblica convida-nos sempre a reforçar a dimensão comunitária.

Nesta devoção popular à Nossa Senhora, é interessante perceber a expressão: “Minha Nossa” Senhora… veja: Ela é “minha e nossa” – o pessoal e o comunitário!

A oração que faço no dia da Padroeira do Brasil, leva em conta estas duas realidades: “o minha e a nossa”. Inicialmente, peço-te Maria Aparecida, pela minha saúde, pela minha família, pelos meus amigos, pela minha vocação, pela minha congregação, pela minha Igreja…

Rezo também a dimensão do “nosso”: Maria Aparecida de Jesus, queremos que desapareça do nosso meio, o ódio, a corrupção, a violência, a prepotência e o individualismo… Com nossa oração/ação faz com que apareça o amor, a transparência e os projetos comunitários.

Maria Aparecida de Jesus, que desapareça do nosso meio a Igreja arrogante, palaciana e de pregações vazias… e apareça a Igreja do compromisso com dos pobres, das palavras e ações proféticas, reunida nos casebres, nos pequenos templos ou debaixo das árvores…

Maria Aparecida de Jesus – é grande a lista do que desejamos que desapareça do nosso meio, para que APAREÇA o jeito de viver como Deus quer. Isto dá muito trabalho, até porque, as dificuldades começam dentro da nossa casa.

Maria Aparecida de Jesus, meus amigos e amigas ao lerem esta “cartinha” vão completar esta oração com os seus pedidos e necessidades.
Desejo-te dizer que gosto muito de estar aqui na África. Não escondo que tenho saudades também… A Senhora lembra das muitas vezes em que a visitei no Santuário. Desejo visitá-la logo que for possível. Infelizmente nem todo brasileiro tem a oportunidade chegar pertinho da sua pequenina imagem. O que nos conforta é saber que para as pessoas que não tiveram as condições de ir à sua casa… a Senhora vai até a casa de cada um…

“Minha Nossa Senhora Aparecida” esteja sempre presente em minha e nossa vida… A porta estará sempre aberta: apareça sempre! Viva Nossa Senhora Aparecida!

* Pe. Edegard Silva Júnior, é Missionário Saletino brasileiro trabalhando na diocese de Pemba, Moçambique.