Jerusalém: um precedente grave contra a liberdade de culto

Basílica do Santo Sepulcro e da Ressurreição em Jerusalém. Foto: CCEE

Um evento sem precedentes marcou o Domingo de Ramos na Cidade Santa: a polícia israelense impediu o Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pierbattista Pizzaballa, e o custódio da Terra Santa, padre Francesco Ielpo, de entrarem na Basílica do Santo Sepulcro, onde se dirigiam para celebrar a Missa no início da Semana Santa.

Por Redação *

Em carta aberta, a Rede Internacional de Padres Contra o Genocídio expressa solidariedade ao Cardeal Pizzaballa e ao Custódio da Terra Santa.

No início desta Semana Santa, enquanto cristãos de todo o mundo voltam seus corações para Jerusalém, elevamos nossas vozes com tristeza, alarme e urgência.

A Rede Internacional de Padres Contra o Genocídio – que reúne mais de 2.200 presbíteros em 58 países, juntamente com 25 bispos e 2 cardeais – deseja expressar sua profunda preocupação e total solidariedade ao Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, e ao Padre Francesco Ielpo, Custódio da Terra Santa.

No domingo, 29 de março de 2026, a polícia israelense impediu que os dois homens entrassem na Basílica do Santo Sepulcro enquanto se dirigiam para a celebração da Missa do Domingo de Ramos. De acordo com a declaração conjunta do Patriarcado Latino de Jerusalém e da Custódia da Terra Santa, os chefes das Igrejas agiram com total responsabilidade desde o início da guerra, respeitando todas as restrições impostas: reuniões públicas foram canceladas, a participação foi proibida e as celebrações foram transmitidas pela televisão.

Nesse contexto, impedir o Cardeal e o Custódio de celebrarem o Domingo de Ramos em um dos dias mais sagrados do calendário cristão não é um mero descuido administrativo. É uma grave violação da liberdade de culto, uma séria quebra do status quo histórico e uma afronta aos milhões de cristãos ao redor do mundo que, nesses dias santos, voltam seus olhos para Jerusalém.

Contudo, este episódio não pode ser visto como um incidente isolado. Faz parte de um quadro mais amplo e alarmante. Faz parte de uma escalada contínua, possibilitada pela impunidade com que o governo israelense continua a violar o direito internacional, restringir liberdades fundamentais, devastar a vida palestina e prejudicar o já frágil tecido espiritual e civil de Jerusalém.

Temos dito isso há muitos meses e repetimos mais uma vez com pesar e convicção: quando violações repetidas do direito internacional são toleradas, a injustiça torna-se mais audaciosa. Quando a opressão não é interrompida, ela se aprofunda. Quando os poderosos não são responsabilizados, sua violência se expande. O que acaba de acontecer em Jerusalém confirma, mais uma vez, que a impunidade desenfreada nunca é contida. Ela se espalha.

Queremos ser igualmente claros: nossa denúncia não é contra o povo judeu. Reiteramos nosso profundo respeito pelo povo judeu e nossa rejeição inequívoca a todas as formas de antissemitismo. Nossa condenação, ao contrário, dirige-se à liderança política israelense e às redes políticas, midiáticas e culturais que continuam a justificar e proteger suas ações, apesar da devastação catastrófica infligida ao povo palestino e, cada vez mais, a toda a região.

Desejamos expressar nossa especial proximidade ao Cardeal Pizzaballa, que tem buscado firmemente caminhos de confiança, presença e reconciliação em uma terra devastada pela guerra, e ao Padre Francesco Ielpo, herdeiro da missão franciscana que guarda os Lugares Santos há oito séculos, enraizada também na memória do encontro entre São Francisco e o Sultão. Humilhá-los e impedi-los no exercício de seu ministério significa atacar não apenas duas pessoas, mas também um sinal vivo de diálogo, convivência e presença fiel no coração do Oriente Médio.

Por essa razão, dirigimos este apelo não apenas aos líderes da Igreja, mas também à consciência dos cristãos em todo o mundo.

Pedimos aos bispos, padres, pastores, líderes religiosos, teólogos e comunidades cristãs em todo o mundo que não se calem. Pedimos que esta violação seja publicamente denunciada na pregação, na oração, no ensino pastoral e no testemunho público durante toda a Semana Santa. Pedimos às dioceses, conferências episcopais, seminários, faculdades de teologia, organismos ecumênicos e movimentos cristãos que se manifestem com clareza e coragem. O silêncio agora não seria prudência, mas sim rendição.

Apelamos também aos governos que afirmam defender a democracia, os direitos humanos e a liberdade religiosa para que ajam com coerência e verdade. A liberdade de culto não pode ser invocada seletivamente. O direito internacional não pode ser defendido apenas quando conveniente. Os Lugares Santos não podem ser honrados enquanto as pessoas que vivem ao seu redor são abandonadas, humilhadas, deslocadas ou destruídas.

Ao mesmo tempo, apelamos de modo especial aos círculos cristãos onde formas de sionismo cristão continuam a distorcer a fé bíblica e a obscurecer o Evangelho. Nenhuma teologia que abençoe a dominação, a desapropriação ou o castigo coletivo pode ser reconciliada com o Deus de Jesus Cristo. Nenhuma leitura das Escrituras que silencie o clamor dos oprimidos pode pretender servir à verdade do Evangelho.

No início da Semana Santa, lembramos que a Paixão de Cristo não é comemorada apenas na liturgia; ela também continua na história. Continua em todos aqueles esmagados pela violência, despojados de sua dignidade, expulsos de seus lares ou mesmo privados do direito de lamentar e orar em paz. Em particular, continua no sofrimento do povo palestino em Gaza e na Cisjordânia, que suporta devastação, deslocamento, cerco e a destruição das condições mais básicas da vida humana.

Portanto, apelamos a toda a Igreja: não se afastem.

Este é um momento de verdade. Este é um momento de clareza moral. Este é um momento de coragem.

Se acreditamos que Cristo está presente nos feridos, então devemos defender os feridos. Se acreditamos que o Evangelho é uma boa notícia para os oprimidos, então devemos rejeitar toda teologia, toda diplomacia e todo silêncio que os abandona. Se celebramos a morte e ressurreição de Jesus, então não podemos permanecer neutros diante dos povos crucificados.

Que esta Páscoa não nos encontre em silêncio, tímidos ou evasivos. Que nos encontre fiéis. Que nos encontre prontos para falar, orar, agir e estar ao lado daqueles que sofrem. E que o clamor que se eleva de Jerusalém, Gaza e da Terra Santa penetre a consciência da Igreja e do mundo antes que seja tarde demais.

Comitê Diretivo da Rede Internacional de Padres contra o Genocídio

Contato para comunicação: profetiperlapace@gmail.com

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