Igreja da Amazônia envia carta aos líderes na cúpula da COP26

A Conferência Eclesial da Amazônia – CEAMA e a Rede Eclesial Amazônica – REPAM, entidades que representam a Igreja Católica no território amazônico, se expressam publicamente aos líderes presentes na COP26, sobre a importância de tomar decisões em favor do planeta, nossa “casa comum”.

Abaixo, publicamos a carta completa em espanhol (no final estão as versões em PDF em espanhol, italiano e português):

CARTA AOS LÍDERES NA CÚPULA DA COP26

“Não há duas crises separadas, uma ambiental e outra social, e sim uma só e complexa crise sócio ambiental. As linhas para a solução requerem uma aproximação integral para combater a pobreza, para devolver a dignidade aos excluídos e simultaneamente para cuidar da natureza” (Papa Francisco – “Laudato Si”, 139).

Estimados líderes dos países presentes na cúpula da COP26,

Como membros da Conferência Eclesial da Amazônia – CEAMA e da Rede Eclesial Amazônica – REPAM, entidades que representam a Igreja Católica no território amazônico, formado por oito países e pelo território ultramarino de Guiana Francesa que constituem o bioma da Amazônia, queremos manifestar-nos publicamente e não permanecer em silêncio frente ao evento da COP26, no qual vocês estão presentes e participando.

Queremos expressar-lhes nosso sentimento de desconcerto e, ao mesmo tempo, de impotência ao contemplar e experimentar o caos que vive nosso Planeta, entre outras coisas, por causa da mudança climática e suas consequências catastróficas para a humanidade e para a casa comum, como tão maravilhosamente o tem denominado o Papa Francisco (LS, 3).

Como homens e mulheres de boa vontade, escutamos o grito dos pobres e também o grito da Terra que geme em dores de parto (Rm 8, 22). E é por isso que, com grande preocupação, nos dirigimos a vocês nas atuais condições em que vive nosso Planeta ameaçado e atormentado.

Como foi vivido e expressado recentemente, em outubro de 2019, no Sínodo da Amazônia, temos “… uma consciência aguda sobre a dramática situação de destruição que atinge a Amazônia. Isto significa a destruição do território e o desaparecimento de seus habitantes, especialmente os povos indígenas. A selva amazônica é um ‘coração biológico’ para a Terra cada vez mais ameaçada. Ela se encontra numa corrida desenfreada para a morte. Ela requer mudanças radicais com suma urgência e nova direção que permita salvá-la. Está cientificamente comprovado que o desaparecimento do bioma Amazônico terá um impacto catastrófico para o conjunto do Planeta!” (Documento Final, 2).

A Amazônia, como um grande território de biodiversidade e de ricas culturas, sendo um lugar estratégico para a humanidade e para nosso Planeta, se encontra drasticamente afetada pela deterioração ambiental e pelas consequências da mudança climática, devido fundamentalmente às emissões de gases de efeito estufa. Precisamos urgentemente lutar contra toda essa degradação numa região que “se mostra diante do mundo com todo seu esplendor, seu drama e seu mistério” (Querida Amazônia, 1).

A Amazônia é uma região ameaçada por diversos motivos: as políticas socioambientais de governos insensíveis e intransigentes, o modelo extrativista que impera, a desertificação que avança, o uso inapropriado do solo e sua super exploração, o desmatamento e o desprezo de nossos bosques, as queimadas indiscriminadas e em constante aumento, a contaminação das águas, além de muitos outros.

“Os pobres são os primeiros a pagar a conta de toda essa problemática ecológica e climática, pois terão cada vez menos acesso à água potável, à terra e ao trabalho. E também as gerações futuras, que talvez herdarão um planeta degradado, desolado e pouco a pouco inviável para a vida, o que seria muito grave” (Card. Claudio Hummes, entrevista concedida a Europa Press, 2016).

Necessitamos cuidar de nossa casa comum e tomar medidas de extrema urgência diante da violência que os territórios e os povos amazônicos e suas culturas sofrem. Os impactos são imensos e todos sofremos as consequências. Já não valem mais panos quentes, promessas não cumpridas, compromissos não assumidos, nem medidas que não sejam radicais na emissão de gases e outras medidas complementares que ajudem a corrigir o Planeta e seus habitantes. Vivemos num mundo quebrado. É preciso começar a agir e de forma integral, para responder a toda esta realidade infernal, ratificando o Acordo de Paris e tudo o que ele implica. Todos e todas somos parte do problema, mas também da solução.

Vocês têm em suas mãos a oportunidade de tomar providências transcendentais que revertam a grande catástrofe que se avizinha, que em parte já estamos vivendo, consequência duma série de políticas e decisões, tanto públicas como privadas. Não podemos esperar mais, queremos ter resultados palpáveis e que conduzam a mudanças de rumo de uma vez por todas.

Nos encontramos no risco de que o aquecimento do Planeta se eleve a 2,4°C. Necessitamos honestidade, coragem e responsabilidade, sobretudo dos países mais poderosos e contaminantes. Diante duma crise climática não se pode tolerar privilégios de alguns acima do bem comum. Não existe o direito de manter certa comodidade diante da dor e da pobreza dos outros. Esta COP26 é nossa última esperança para parar o aquecimento global a 1,5°C.

Esperamos que escutem a nossa súplica, bem como a de muitos povos da Amazônia que tradicionalmente cuidaram de seus territórios e hoje sentem que as opções tomadas a partir de seus países foram infrutuosas. Não podemos perder a esperança! E se a perdermos, as decisões ou opções que precisam ser tomadas deverão enfrentar de forma decidida e urgente a raiz dos problemas, para que não aconteça o que nos dizia o Prêmio Nobel de Literatura colombiano Gabriel García Márquez em sua novela “Cem anos de solidão”: “As estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a Terra”.

Recorremos ao bom Deus para que ilumine vocês, a fim de que estejam à altura das atuais circunstâncias.

Fraternalmente,

Bogotá e Manaus, 04 de novembro de 2021.

Cardeal Claudio Hummes, Presidente da CEAMA

Pe. Alfredo Ferro, Secretário Executivo da CEAMA

Cardeal Pedro Barreto, Presidente da REPAM

Ir. João Gutemberg Sampaio, Secretário Executivo da REPAM

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