
A missão cristã não começa, necessariamente, pela palavra anunciada, mas pela escuta atenta da vida, da cultura e da história do outro.
Por Albanus Kioko
Durante o período de férias de final de ano, tive a oportunidade de viver uma experiência missionária na Missão Catrimani, no estado de Roraima, em meio ao povo Yanomami. Mais do que um tempo de atividades específicas, essa vivência foi para mim, um caminho profundo de escuta, aprendizado e conversão do olhar, saindo da rotina dos estudos teológicos em São Paulo. Ao longo desses dias, fui compreendendo que a missão cristã não se sustenta apenas no que se faz ou no que se diz, mas, sobretudo, na presença humilde, no respeito à cultura do outro e na disposição de caminhar junto.
O texto que segue nasce dessa experiência concreta. Ele expressa percepções, desafios e descobertas vividas no cotidiano da missão, onde a escuta se revelou como atitude fundamental para o verdadeiro encontro. Ao partilhar essa vivência, desejo contribuir para uma reflexão sobre a missão que não impõe, mas se deixa transformar pelo povo com quem caminha.
A experiência no território do povo Yanomami, levou-me a compreender que a missão cristã não começa, necessariamente, pela palavra anunciada, mas pela escuta atenta da vida, da cultura e da história do outro. Em um contexto marcado por forte identidade cultural, desafios sociais e profunda relação com a natureza, a missão revela-se, antes de tudo, como presença humilde e disponibilidade para aprender.
Durante aproximadamente dois meses de convivência com os Yanomami no Catrimani, tornou-se evidente que o verdadeiro encontro missionário nasce do respeito, da proximidade e da abertura sincera ao modo de viver do povo Yanomami. Mais do que realizar atividades ou apresentar propostas, a missão manifesta-se no estar junto e no caminhar com o povo, reconhecendo que Deus já se faz presente em sua história.

Catrimani e o povo Yanomami: um contexto de vida e resistência
Catrimani é um espaço de grande riqueza cultural e humana, onde o povo Yanomami vive em profunda relação com a floresta, a comunidade e os ciclos da vida. A identidade coletiva, a oralidade e o cuidado com a natureza são elementos centrais do seu modo de existir. Cada gesto cotidiano expressa uma compreensão de mundo marcada pela interdependência entre as pessoas e o ambiente.
Ao mesmo tempo, trata-se de um contexto atravessado por desafios históricos e atuais, como a defesa do território, a saúde e as ameaças externas. Nesse cenário, a presença missionária é chamada a ser sinal de solidariedade e respeito, evitando qualquer forma de imposição cultural ou religiosa. A missão acontece no chão da vida real, marcada por resistência, sabedoria e esperança.
A escuta como atitude fundamental da missão
Desde os primeiros dias, tornou-se claro que a escuta é a atitude fundamental para qualquer ação missionária em território Yanomami. Escutar não significa apenas compreender palavras, mas acolher silêncios, observar gestos, respeitar tempos e aprender a perceber o significado profundo das relações.
Essa escuta exige humildade e conversão. Não se trata de chegar com respostas prontas, mas de permitir que o outro se revele a partir de sua própria cultura. Inspirada pela atitude de Jesus, que se aproxima e escuta antes de falar, a missão em Catrimani convida a uma presença discreta e atenta. A escuta gera confiança, e a confiança abre caminho para um encontro verdadeiro, onde o Evangelho é testemunhado principalmente pela vida.
A convivência cotidiana como espaço de evangelização
A convivência diária com o povo Yanomami mostrou que a evangelização acontece, muitas vezes, nos gestos simples do cotidiano. Partilhar a vida, caminhar juntos, participar das atividades comunitárias e respeitar os costumes locais tornam-se formas concretas de presença missionária.
Atividades como o letramento, as práticas agrícolas, a construção de galinheiros e a apicultura foram importantes, mas sempre vividas a partir do diálogo e da convivência. Mais do que os resultados práticos, o que marcou foi o processo construído junto ao povo, no qual a relação humana teve prioridade.
Essa convivência incluiu também a participação respeitosa em momentos significativos da vida comunitária, como as celebrações culturais realizadas quando uma pessoa da comunidade faleceu. Acompanhar esses rituais foi uma experiência profunda de escuta e aprendizagem. Estar presente nesses momentos significou partilhar a dor, respeitar o sagrado da cultura do outro e reconhecer que a missão também se faz no silêncio e na solidariedade.
Desafios, limites e conversão missionária
A missão no Catrimani apresenta desafios importantes, como as barreiras linguísticas, as diferenças culturais e o risco de interpretar a realidade a partir de categorias externas. Em muitos momentos, surge o sentimento de impotência diante dos próprios limites.
No entanto, esses limites tornam-se ocasião de crescimento e conversão missionária. Reconhecer que não se tem todas as respostas ajuda a construir uma missão mais humana e evangélica. A escuta, mais uma vez, revela-se essencial para evitar atitudes de imposição e para valorizar o protagonismo do povo Yanomami.
Conclusão: uma missão que se deixa transformar
A experiência no Catrimani ensina que a missão que começa pela escuta transforma tanto quem é escutado quanto quem escuta. O povo Yanomami não é apenas destinatário da missão, mas protagonista de uma história onde Deus já está presente e atuante.
Em um mundo marcado pela pressa e pelo excesso de palavras, essa vivência recorda que o Reino de Deus se constrói, muitas vezes, no silêncio, na presença fiel e no respeito profundo pelo outro. Quando a missão começa pela escuta, ela deixa de ser imposição e torna-se encontro. Em Catrimani, escutar o povo Yanomami foi um caminho concreto de encontro com Deus e de renovação do sentido mais autêntico da missão.
Por Albanus Kioko, imc, é seminarista da Consolata, cursando o terceiro ano de teologia, São Paulo, SP. Fonte: Consolata Brasil


