A riqueza etnocultural dos indígenas amazônicos

8 de junho de 2020

Os indígenas amazônicos somam aproximadamente três milhões, divididos em 390 povos que falam 204 línguas vivas, pertencentes a 49 famílias linguísticas.

Por Julio Caldeira

A Amazônia compreende mais de 7,5 milhões de km2, que se repartem em nove países dos 12 que formam a América do Sul: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. Erroneamente é considerada por muitos como um lugar de grande vazio demográfico para ser ocupado. Entretanto, na realidade tem uma importância vital para todo o planeta pela sua diversidade humana, cultural e natural, e pela expressão da criação de Deus que representa.

Realidade Pan-amazônica

Conforme a Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA), os indígenas amazônicos somam aproximadamente três milhões, divididos em 390 povos que falam 204 línguas vivas, pertencentes a 49 famílias linguísticas. Destes, aproximadamente 137 povos vivem em isolamento voluntário ou não foram contatados. Alguns estudos defendem que os indígenas habitam a Amazônia há mais de 20 mil anos, desenvolvendo um verdadeiro estilo de vida integrada à dinâmica da Região.

Quando chegaram os colonizadores europeus no século XV estima-se que havia em torno de 6,8 milhões de indígenas, que sofreram com a perseguição, a escravidão e as enfermidades que dizimaram povos inteiros, como os Omaguas (que habitavam as ribeiras do rio Amazonas do Brasil, Colômbia, Peru e Equador).

Devemos reconhecer que ainda sofrem as consequências da colonização, de sua integração às nações atuais e dos períodos de exploração da borracha e dos minerais, onde muitos foram forçados a adotar um estilo sedentário, perdendo seu modo de vida tradicional e seus territórios, convertendo-se em “colonos”.

Atualmente, também sofrem o impacto do desmatamento (que já supera os 25% da superfície amazônica) e da mudança climática que afeta este bioma. Por outro lado, sendo a maior província mineral do planeta, a Amazônia é assediada e cada vez mais pressionada por interesses extrativistas de empresas transnacionais e de governos neoliberais, bem como a expansão das fronteiras agrícolas, as monoculturas, a contaminação das águas, os conflitos internos, a expulsão forçada, os grandes projetos hidrelétricos e extrativistas, a violação dos direitos humanos etc.

Resistência e Desafios

Em seu processo histórico, os Povos Indígenas amazônicos são reconhecidos por sua resistência silenciosa, que mantêm viva sua cultura e tradições. A luta pelo reconhecimento de seu modo de vida por parte de muitas organizações indígenas conseguiu fazer com que a maioria dos Estados reconhecesse em suas constituições os direitos históricos dos Povos Indígenas. Mas, a luta apenas está começando!

Ainda que muitos indígenas tenham seus territórios demarcados e vivam em suas terras, “resguardados” ou em comunidades indígenas, há muitos que ainda esperam que as políticas dos Estados saiam do papel e que reconheçam seus direitos constitucionais a organizarem-se segundo sua cultura, espiritualidade e em seu território, a ter educação, saúde etc.

Para o indígena amazônico o mundo espiritual é a base de sua vivência, tendo o xamã (que detém o conhecimento sobre as plantas e animais locais) como figura-chave, pois é ele quem pode manter a harmonia entre este mundo e o outro. Para compreender esta realidade é importante ter em conta que é justamente esta harmonia com a natureza, entre as pessoas e com o Transcendente que dá sentido à sua vida e os mantém firmes mesmo com as diferenças culturais provenientes de sua própria língua, música, manifestações etnográficas, tradições milenárias, mitologia e conhecimentos médicos naturais, que muito ensinam aos não-indígenas.

Unidos somos mais

Devemos aprender a viver em meio à diversidade, onde “nada permanece e tudo se transforma” a partir das dinâmicas próprias de cada grupo étnico e no ritmo que caminham. Para isso são importantes algumas atitudes como o diálogo, o conhecimento mútuo e a complementaridade harmônica entre as pessoas e a natureza.

Neste contexto, as organizações, instituições, ONG’s e Igrejas assumem um papel importante: ser partícipes respeitosos desse processo de vida dos Povos Indígenas. De maneira particular, a Igreja Católica tem o desafio de continuar sua presença, promovendo a interculturalidade e trabalhando para “fortalecer o rosto amazônico” e indígena da Igreja (cf. papa Francisco aos bispos brasileiros, JMJ, 27 de julho de 2013).

Um trabalho concreto, entre tantos, está sendo realizado pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), que está assumindo um papel importantíssimo na escuta, acompanhamento e denúncias, como foi a audiência sobre “o direito ao território das comunidades indígenas e camponesas na Pan-Amazônia” que foi realizada no dia 17 de março de 2017 na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Neste dia foram apresentados casos concretos das comunidades indígenas Tundayme (Equador) e Awajún e Wampís (Peru) afetadas pelas empresas de mineração e petrolíferas que provocam a contaminação dos rios e o desalojamento forçado de seus lugares de origem, e os Jaminawa Arará (Acre – Brasil), que reclamam a urgente demarcação de seus territórios, para poder viver com segurança e não serem vítimas de saques e invasão de suas terras. Júlio Caldeira, imc, é missionário na Colômbia.

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