A misericórdia em José Allamano

27 de junho de 2020

A palavra misericórdia origina-se do latim: miserere, cujo significado é ter o coração (cors) com os pobres (miser). Dito de outra forma, significa sentir afeto pelos pobres e transcender-se, saindo de si mesmo ao encontro dos demais, esquecendo-se de si mesmo.

Por Lawrence Ssimbwa *

No Sermão da Montanha, Jesus esclarece que os bem-aventurados são os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia (Mt 5, 7). Sobre esse aspecto, São João Paulo II, explica que “A Igreja vê nestas palavras um apelo à ação e esforça-se por praticar a misericórdia. (…) O homem alcança o amor misericordioso de Deus e a sua misericórdia, na medida em que ele próprio se transforma interiormente, segundo o espírito de amor para com o próximo (Carta Encíclica Dives in Misericordia, p. 24). Pois, este processo autenticamente evangélico não é somente uma transformação espiritual feita de uma vez por todas, pelo contrário, constitui um estilo de vida completo, uma característica essencial e contínua da vocação cristã.

Ao longo da história do cristianismo, muito santos e bem-aventurados traduziram isso nas suas vidas. A misericórdia não foi somente um tema teórico para ser pregado, mas tornou-se parte integral da existência e da missão deles. Há inúmeros exemplos, mas vale a pena destacar a São Francisco de Assis, Santa Madre Tereza de Calcutá, São João Bosco, São Vicente de Paula, São João da Cruz, São Martin de Porres, Bem-aventurado José Allamano, Bem-aventurada Irene Estefani Nyaatha, Bem-aventurada Leonella Sgorbati etc. Os santos e bem-aventurados mencionados demonstraram qual era o sentido último do amor cristão ao próximo. O testemunho deles indica que “a misericórdia cristã consiste fundamentalmente em encontrar a Jesus Cristo na pessoa que sofre” (Kasper, A misericórdia: condição fundamental do Evangelho e chave da vida cristã, p.147).

O fundador

O tema da misericórdia não está ausente na vida e na obra do Bem-aventurado José Allamano. Todo o percurso da sua vida mostra que o fundador dos missionários e missionárias da Consolata foi instrumento fiel da misericórdia de Deus. Ele permitiu que Deus o utilizasse para propagar sua misericórdia aos demais. Isso se deve à convicção que ele tinha de que, a misericórdia era o alicerce que sempre governou a vida da Igreja e dos cristãos. A seguir apresentamos como a misericórdia foi um pilar fundamental na vida e na missão do Bem-aventurado José Allamano.

A fundação do Instituto

Para poder observar a centralidade da misericórdia no Bem-aventurado José Allamano, é preciso levar em conta a fundação do Instituto dos Missionários da Consolata, ou seja, as circunstâncias pelas quais ele foi fundado. É verdade que a fundação do Instituto para as missões estrangeiras é fruto da misericórdia de Deus. Mesmo que, em nenhum lugar, em nenhum escrito, seja mencionada a palavra “misericórdia” como elemento inspirador na sua fundação, é bastante claro que a preocupação do Bem-aventurado José Allamano por aqueles homens e mulheres que nunca tiveram a oportunidade de conhecer a Cristo, ou que o tinha conhecido, mas sem profundidade (como é o caso dos cristãos de Kaffa, Etiópia, cujo pastor tinha sido expulso) não foi uma mera casualidade, mas um fruto da misericórdia.

A história de vida do Bem-aventurado José Allamano mostra que ele bebeu completamente da misericórdia de Deus. Ela a experimentou muito cedo, quando seu pai morreu. A misericórdia de Deus o acompanhou em companhia de sua mãe, Maria Ana Cafasso. Da mesma maneira, a experimentou quando estudava no oratório Salesiano de Valdocco, onde se encontrou com o santo da misericórdia, São João Bosco. A vida cheia de santidade do seu tio José Cafasso também lhe irradiou rastros de misericórdia. As obras misericordiosas deste Santo com os encarcerados não deixaram de exercer influência na vida de Allamano. A cura milagrosa é outro elemento que mostra a misericórdia de Deus em sua vida. Definitivamente, ele sentiu que a misericórdia de Deus o acompanhava quando foi curado milagrosamente da doença que provavelmente atrapalharia a fundação do Instituto da Consolata. Essas circunstâncias, de uma ou outra maneira, influenciaram a vida e a obra misericordiosa do Bem-aventurado, marcaram sua vida e se tornaram acontecimentos vitais que alimentaram o projeto da fundação do Instituto, cuja tarefa é seguir com a propagação da Consolação de Deus em terras distantes.

Não podemos negar que a fundação do Instituto foi fruto do zelo apostólico do Bem-aventurado José Allamano. Seu zelo apostólico fez com que ele ampliasse seus horizontes até abarcar o mundo inteiro. Aqui é onde podemos notar a misericórdia e sua compaixão apostólica. Ele se compadeceu pelas outras terras do mundo, com outras culturas totalmente diferente das suas, neste caso da África, cuja maioria dos habitantes naquele tempo ainda não conheciam a Jesus Cristo. Pela misericórdia, seguramente sentiu a urgência do mandato de Cristo de anunciar o Evangelho a todos. Por isso, para ele era natural que em sua igreja local, fértil com tantas instituições dedicadas às obras de caridade, faltava uma que se dedicasse exclusivamente às missões.

É claro que muitos missionários inspiraram o ser misericordioso de José Allamano em direção às terras de missão. Um deles foi o Cardeal Guilherme Massaia. É importante notar que este missionário capuchinho foi um dos modelos mais significativos para o Bem-aventurado José Allamano. A necessidade de continuar com o trabalho dele inspirou a fundação do instituto da Consolata para as missões.  José Allamano se impressionava muito quando lia as obras missionárias dele na Etiópia. O encontro pessoal com ele depois de sua expulsão daquele país, motivou Allamano a projetar o futuro Instituto exclusivamente missionário. 

Com a expulsão de Massaia das terras etíopes, o fundador dos missionários da Consolata sentiu grande misericórdia por esse povo que o Senhor lhe havia encomendado. Isso lhe permitiu descobrir o vazio da apostolicidade que, ao seu ver, logo teria que ser preenchido. A misericórdia do Bem-aventurado José Allamano está relacionada com sua forma de perceber com constância e astúcia as necessidades espirituais, morais, sociais e pastorais desses cristãos. Vale a pena lembrar que a sua intenção era que os primeiros missionários da Consolata pudessem entrar em contato com aqueles cristãos abandonados para continuar a obra do Cardeal Guilherme Massaia.

A opção pelos pobres

Deus é misericordioso por excelência com os pobres. O amor e a solicitude de Deus têm os pobres e os débeis como destinatários especiais. Sua misericórdia para eles se manifesta, sobretudo, na proibição de oprimir e explorar os estrangeiros, viúvas, órfãos (Ex 22, 20-26), na proteção dos pobres diante dos tribunais (Ex 23, 6-8), e na proibição da usura (Ex 22, 24, 24-26). A opção preferencial pelos pobres é uma das características que marca o ser misericordioso do Bem-aventurado José Allamano. Sem nenhuma dúvida durante sua vida a preocupação pelos pobres e débeis, tanto a nível local como nas terras de missão onde trabalhavam seus missionários e missionárias. A opção preferencial pelos últimos está relacionada com a primeira razão da fundação do instituto. Desde o início do Instituto, o fundador mostrava a predileção pela periferia. Ele se compadecia daqueles homens e mulheres de terras distantes que ainda não tinham conhecido ao Salvador do mundo. Ele não deixava de inculcar este aspecto nos seus missionários e missionárias. Para ele, o missionário “não parte para obter um pouco de distração, muito menos parte para conquistar uma glória, menos ainda para obter coisas materiais. Sua partida é um ato de fé a favor dos mais pobres.” (Castro, Padre y Maestro de Misioneros, p. 141). O Bem-aventurado José Allamano estava convencido que o missionário da Consolata não podia ser separado do compromisso com os pobres, pois Jesus Cristo é o rosto humano de Deus e rosto divino do homem. Vale a pena ressaltar que a opção preferencial pelos pobres está implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para nos enriquecer com sua pobreza. Esta opção nasce da fé em Jesus Cristo, o Deus feito homem que se fez nosso irmão.  (Hb 2, 11-12).

A opção preferencial pelos pobres fez com que o Bem-aventurado José Allamano se preocupasse muito pela sua libertação integral. A libertação é um processo iluminado, reforçado, sustentado pela fé e celebrado por ela como antecipação dessa plena libertação anunciada na vida, morte e ressurreição de Jesus. Isto significa que a libertação integral dos pobres deve abarcar a totalidade da pessoa: sua cultura, sua estrutura, sua dimensão histórica e seu caminho até a plena estatura de Cristo.

Ambiente missionário

Não há dúvida de que o fundador recebeu a vocação de ser misericordioso do mesmo Deus cujo atributo divino é a misericórdia. Também não podemos negar que sua misericórdia com os povos da periferia tenha sido influenciada pelo denso ambiente missionário da Igreja local onde ele foi criado. Quando nasceu, o ambiente de sua igreja local estava repleto de missão. Naquele momento estava nascendo institutos missionários como o PIME,  e logo depois nasceram os combonianos. Isso significa que ele teve a vantagem de conhecer os mestres da missão Ad Gentes, que acabaram se tornando seus modelos e posteriormente para seus missionários e missionárias. Eles, sem dúvida nenhuma, influenciaram o seu ser misericordioso com os pobres nos lugares periféricos do mundo.

Ao falar dos modelos de missão, não podemos deixar de mencionar a São José Cafasso, que impressionou o Bem-aventurado José Allamano pela sua capacidade de se mover em direção a todos com um zelo apostólico incansável. São João Bosco é outro modelo que contribuiu no crescimento do ser misericordioso do Bem-aventurado José Allamano na direção da missão Ad Gentes. Ele estava acostumado a ver as expedições missionárias com tanta solenidade que saiam de Turim para os lugares de missão.  A eles também se junta o Cardeal Massaia entre os que foram modelos para o Bem-aventurado José Allamano. Este missionário capuchino em meio da perseguição, trabalhou por 33 anos em Etiópia. Para ele, foi um modelo de perseverança na missão. O exemplo desses modelos, sua compaixão com aqueles que não conheciam ao Cristo, seu amor inquebrantável a Deus e ao próximo, tudo isso, influenciou o zelo missionário e misericordioso do Bem-aventurado José Allamano. A misericórdia destes santos manifestada nas obras caritativas, entrega total à missão Ad Gentes, não deixou de semear as sementes da misericórdia no ser do fundador dos missionários e missionárias da Consolata.

“A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia.  A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo (papa Francisco, Misericordiae Vultus, No. 10). A misericórdia foi um pilar fundamental na vida e na obra do Bem-aventurado José Allamano. Foi misericordioso porque entendeu que a ele tinha sido aplicado a misericórdia. Os missionários, as missionárias e os leigos missionários da Consolata, são herdeiros do carisma de ser arautos de misericórdia e consolação de Deus ao mundo como foi o Bem-aventurado José Allamano.

* Lawrence Ssimbwa, imc, é missionário da Consolata.

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