A melhor experiência é a pessoal!

30 de dezembro de 2020
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Uma piada virou realidade. Os caminhos de Deus são diversos.

Por James Mate *

Sou padre James Mate, missionário da Consolata e estou trabalhando na Mongólia. Realizei minha formação missionária e sacerdotal em dois países: Quê­nia e Argentina. Aqui a Igreja é bem jovem, tem apenas 27 anos. Temos um sacerdote diocesano, um diácono, vários missionários administrando dez paróquias, escolas e centros sociais. Viver entre não cristãos nos permite ter uma experiência em primeira mão da missão Ad Gentes hoje.

Quando eu estava na Argentina estudando teologia, nosso superior, padre Maurício Guevara costumava brincar que um de nós (éramos três), poderia ir trabalhar na Ásia, na Mongólia! A Mongólia é considerada uma das missões mais desafiadoras dos missionários da Consolata. Então nós realmente ríamos da piada.

Terminamos o estudo teológico e as destinações estavam a caminho. Acontece que dois de nós permaneceríamos no continente americano, enquanto um iria para o continente asiático. E adivinha? Eu era o único destinado para a Ásia. Recebi com entusiasmo as notícias e as compartilhei com meus ex-colegas e com o padre Maurício. Foi divertido. Mais uma vez, rimos disso.

Depois da minha ordenação sacerdotal, que ocorreu em agosto de 2018, em meu país de origem, Quênia, imediatamente viajei para Roma, onde estive por vários meses aprendendo a língua italiana e preparando os documentos para ir à Mongólia. O processo demorou vários meses e finalmente consegui o visto. No dia 4 de junho de 2019, deixei Roma com destino à Mongólia.

Viajei por Moscou. A jornada parecia muito curta para mim. Muitos pensamentos persistiam na minha mente: o pouco que sabia sobre a Mongólia e seu povo, a missão lá, o clima hostil, a língua e cultura complicadas, algumas experiências difíceis que alguns missionários tiveram etc. No geral, me convenci de que uma experiência pessoal seria a melhor opção.

Ao chegar à Mongólia, fui recebido por nossos quatro confrades. Eu estava feliz e animado. O tempo estava frio e Ulaanbaatar parecia uma cidade moderna. A semana seguinte foi uma semana teológica organizada para todos os missionários, por isso tive o prazer de participar desse encontro enriquecedor. Depois comecei o curso de língua mongol, que não é nada fácil.

Refúgio de valores

Antes de chegar ao país, eu havia lido algo sobre sua cultura, as iurtas(gers) e assim por diante. Mas estar fisicamente presente na terra dá uma impressão mais prática. Desde que coloquei meus pés nesta terra de céu azul, todos os dias tem sido um aprendizado.

O ano novo mongol, Tsagaan Sar, começa em fevereiro (em datas diferentes). É uma grande festa onde as famílias se visitam, com rituais de saudação e alimentação em comum. A hospitalidade é muito valorizada na ocasião. Em julho, há celebrações do Naadam. (festival nacional tradicional na Mongólia durante o qual vários jogos são disputados – luta livre mongol, arco e flecha, corrida de cavalos, entre outros). No ano passado participei dessas comemorações e foi muito divertido. Eu aprendi muito. Bem, com meu colega fomos para o campo de corrida de cavalos do Naadam fora da capital. O local se caracterizou pela forte presença de mongóis e turistas de diferentes partes do mundo. Muitos cavalos, camelos, além de alimentos culturais.

Enquanto caminhávamos, chegamos a um Ger (casa tradicional) com uma porta aberta, como é sempre o caso com Gers aqui. (É de formato redondo, feito de uma tela resistente à água e pedaços de madeira. Na maioria dos casos, é portátil). Entramos e fomos calorosamente recebidos e nos sentamos para depois sermos servidos com vários pratos mongóis. Todos os presentes pareciam prestar atenção em nós. Também havia outras pessoas entrando, comendo e indo embora. Foi uma grande surpresa para mim. Em muitas partes do mundo é muito raro encontrar uma casa onde simplesmente se entra e se é recebido e servido como um convidado especial! Isso ficou gravado em minha mente. Então, lembrei-me de que cerca de duas semanas após minha chegada à Mongólia, por acaso, viajei com minha comunidade para Arvaiheer, a província onde temos nossa paróquia. No caminho, paramos e entramos em uma iurta (ger) de uma família ao lado da estrada. Lá também fomos bem recebidos, servidos com uma tigela de leite de cavalo fermentado e um pouco de pão. Descansamos um pouco, conversamos e depois saímos deixando para as crianças alguns doces que carregávamos.

Os dois incidentes de uma recepção tão calorosa que falei antes, me emocionaram muito. No livro do Gênesis (Gn 18,1-15), Abraão recebe três convidados desconhecidos que revelam ser Deus, que lhe trouxe as boas novas da promessa de um filho. Isso mostra como o Senhor abençoa nossa generosidade e abertura de coração. Tenho certeza de que Deus está recompensando fortemente os mongóis por viverem valores que muitos deles nem sabem se são valores do Evangelho. No Novo Testamento, Jesus Cristo visitou e recebeu pessoas de todas as esferas da vida e nos convida a fazer o mesmo. Aposto que há mais valores do Evangelho escondidos nesta cultura e devagarinho vou aprendê-los.

Natal

Em todo o mês de dezembro, decorações de Natal podiam ser vistas nos lugares públicos; ruas, parques e casas, mas surpreendentemente as decorações e preparações não foram feitas para o nascimento de Jesus, mas para o ano novo! (muitos mongóis não comemoram o Natal, comemoram o Ano Novo!). Então, 20 de dezembro chega e as escolas fecham por causa das férias de Natal por duas semanas.

No dia 24 de dezembro, a missa da vigília foi marcada para as 17h. Isso chamou minha atenção, pois nunca tinha ouvido falar de uma missa de vigília tão cedo! Mas descobri que eles tinham um motivo. Durante o inverno o sol se põe cedo, às 17 horas a escuridão começa a rastejar, algumas pessoas vêm de longe caminhando e as temperaturas eram assustadoramente baixas (-25 graus).

A celebração eucarística foi seguida de um momento de partilha fraterna – lanches, chás, sucos e posteriormente, o jantar. Sinceramente me senti em casa embora a milhares de quilômetros de minha família de sangue! O dia do Natal, 25 de dezembro, foi um grande dia. Foram várias as celebrações conjuntas: a celebração do Natal, o Sacramento do Santo Matrimônio, o Batismo infantil e o Sacramento da Confirmação.

* James Mate, imc, é missionário na Mongólia.

Fonte: Revista Missões

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