Na Venezuela, após o terremoto, a esperança surge da fenda

A paróquia de Carapita em Caracas tornou-se um centro de distribuição para toda a comunidade. Foto: Juan Almeida

A dor é inegável, mas a resposta humana e baseada na fé à tragédia é ainda mais forte. Semanas após o terremoto duplo que atingiu a Venezuela em 24 de junho de 2026 (magnitude 7,2 e 7,5), tendo como epicentro a cidade de La Guaira, as feridas na infraestrutura e na alma das comunidades permanecem expostas. No entanto, em meio aos escombros das áreas mais vulneráveis, uma rede invisível, mas indestrutível, de solidariedade está sendo construída.

Por Clemente Pedro Madeira *

O número de mortos subiu para 3.685 e o de feridos para 16.740, segundo o último relatório oficial do governo. 6.462 pessoas foram resgatadas, enquanto 17.907 permanecem desabrigadas e 86.794 famílias receberam assistência.

Nas áreas mais atingidas, onde o acesso a serviços básicos entrou em colapso, o cotidiano se tornou uma forma de resistência comunitária. As pessoas não esperam de braços cruzados. Os vizinhos se organizaram para remover os escombros, compartilhar o pouco que restou e cuidar uns dos outros, demonstrando que a dignidade humana não é quebrada pelo movimento da terra.

Em meio aos escombros das áreas mais vulneráveis, uma rede de solidariedade está sendo construída. Foto: Juan Almeida

A Paróquia de Carapita: Uma Ponte para a Salvação

No centro desse esforço está a paróquia São Joaquim e Sant’Ana de Carapita, um epicentro de dor devido aos danos materiais, mas também o farol de luz mais brilhante da região. Os missionários e as missionárias da Consolata, fiéis ao seu carisma de levar conforto onde o sofrimento é maior, transformaram o espaço da paróquia em um centro de logística de emergência e um santuário de esperança ativa.

A paróquia se tornou um verdadeiro centro de distribuição para toda a comunidade. De lá, o trabalho nunca para:

Distribuição de água potável: Diante da escassez de água após o rompimento dos canos, a missão coordena a chegada e a distribuição equitativa da água.

Alimentos e roupas: Alimentos e roupas são separados e distribuídos diariamente às famílias que perderam tudo.

Refúgio e Escuta: Além do apoio material, o espaço oferece conforto emocional e espiritual àqueles que enfrentam traumas e luto.

Em meio aos escombros das áreas mais vulneráveis, uma rede de solidariedade está sendo construída. Foto: Juan Almeida

O Testemunho da Consolata: “Consolai o Meu Povo”

O pároco, padre Charles Gachara Munyu, juntamente com a equipe de missionários da Consolata em Carapita, está vivenciando essa realidade em primeira mão, não como espectadores, mas como parte do mesmo corpo sofredor que busca se reerguer.

“Nossa missão nunca foi ter conforto, mas estar onde o povo sofre”, compartilha o padre Charles. “Viver este período pós-terremoto aqui nos mostra a fragilidade das coisas materiais, mas também a grandeza do espírito do nosso povo. Quando a terra tremeu, as únicas coisas que permaneceram de pé foram a fé e a solidariedade mútua. Ver uma mãe que perdeu o teto, compartilhar sua água com a vizinha nos mostra que Deus ainda está vivo em meio à dor.”

Dra. Marietta Rea Lares, padre Charles Gachara e Yesenia Alcalá, LMC

Para os missionários, o trabalho caminha lado a lado com organizações civis e voluntários locais. A Igreja não age sozinha; Ela convoca, une e canaliza a boa vontade tanto de seu próprio povo quanto de pessoas de fora. Cada caixa de ajuda que chega se torna uma mensagem direta: você não está sozinho.

Histórias de Esperança: O Milagre da Comunidade

Em meio à tragédia, surgem histórias que merecem ser contadas. Como a dos jovens da região que, em vez de sucumbirem ao desespero, formaram equipes de resgate e apoio aos idosos nas áreas mais altas de Carapita, carregando cantis e acompanhando aqueles que não conseguem se mover; ou o testemunho dos cozinheiros da comunidade, que mantêm os fogões acesos para garantir que nenhuma criança vá dormir com fome.

Gladys e Omaira em ação de solidariedade

O cenário continua desafiador e a reconstrução será um longo processo. No entanto, o tecido social e eclesial que se fortaleceu em Carapita é uma prova inegável de que a destruição não tem a última palavra. A Consolata e sua comunidade permanecem firmes, demonstrando que, quando tudo desmorona, o amor perdura e reconstrói.

Consolação em Ação: Comunidade e Espiritualidade Diante da Emergência

Multipucando esperança

A resposta à crise causada pelo recente terremoto não se limitou à assistência material, mas também se estendeu ao profundo espaço de espiritualidade e organização comunitária. Em uma recente reunião de grupo de trabalho e sessão de avaliação, as equipes locais compartilharam as experiências angustiantes que vivenciaram durante o terremoto e os dias desafiadores que se seguiram. Longe de se deter na tragédia, a reunião serviu para avaliar as ações em andamento e, crucialmente, para elaborar um plano de contingência estratégico para abordar as lacunas e deficiências que frequentemente surgem no apoio a longo prazo aos afetados.

Reconhecendo que o impacto de uma catástrofe transcende o físico, uma sessão de treinamento sobre assistência e ação social foi agendada para sexta-feira, 10 de agosto, às 16h. Este espaço capacitará voluntários e líderes com ferramentas psicológicas e emocionais essenciais, baseadas em uma premissa clara e profundamente humana: a necessidade de consolar uns aos outros para que, a partir dessa força interior, possamos ser uma verdadeira fonte de conforto para nossos irmãos e irmãs que sofrem.

Essa visão de acompanhamento e presença de qualidade não é isolada; ela reflete diretamente o carisma dos missionários da Consolata, que estiveram na linha de frente do apoio. Como reflexo dessa rede de solidariedade que transcende fronteiras, a comunidade também se uniu em uma Eucaristia pela Venezuela, presidida desde a Colômbia pelo padre Leonel Narváez, fundador das Escolas de Perdão e Reconciliação (ESPERE). Este ato litúrgico não foi apenas um momento de oração, mas também uma reafirmação de um compromisso vivo: ser agentes ativos de consolo e esperança onde os muros se romperam, mas a fé e a organização social permanecem intactas.

* Padre Clemente Pedro Ernesto Madeira, IMC, missionário em Caracas.

Paróquia São Joaquim e Sant’Ana em Carapita na periferia de Caracas
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