Leão XIV: “Ninguém pode usar Deus para justificar a guerra”

Papa Leão XIV saúda os fiéis na Praça de São Pedro após a missa do Domingo de Ramos. Fotos: Jaime C. Patias

Em sua homilia na Missa do Domingo de Ramos, o Papa Leão XIV fez mais uma vez um apelo sincero pela paz. “Este é o nosso Deus: Jesus, Rei da Paz. Deus que rejeita a guerra, a quem ninguém pode usar para justificar a guerra, que não ouve as orações dos que fazem guerra e as rejeita, dizendo: ‘Ainda que multipliqueis as vossas orações, eu não as ouvirei; as vossas mãos estão cheias de sangue'” (Is 1,15).

Por Jaime C. Patias *

Que o Príncipe da Paz “ampare os povos feridos pela guerra”, a começar pelo Oriente Médio, foi outro apelo do Papa durante o Ângelus.

“Cristo, Rei da Paz, clama novamente de sua cruz: Deus é amor! Tende piedade! Deponham as armas, lembrem-se de que sois irmãos!” Este apelo concluiu a homilia da missa presidida por Leão XIV na Praça de São Pedro, que marcou o início de sua primeira Semana Santa como Papa.

“Elevemos nossas orações ao Príncipe da Paz, para que Ele ampare os povos feridos pela guerra e abra caminhos concretos de reconciliação e paz”, foi o seu outro apelo durante o Ângelus, em uma Praça de São Pedro repleta de fiéis, que Leão saudou com um longo passeio no papamóvel após a missa.

“Estou em oração pelos cristãos do Oriente Médio, que sofrem as consequências de um conflito atroz e, em muitos casos, não podem vivenciar plenamente os ritos destes dias santos”, disse Leão XIV. “Precisamente nestes dias em que a Igreja contempla o mistério da Paixão do Senhor, não podemos esquecer aqueles que hoje participam verdadeiramente de seu sofrimento. Sua provação desafia a consciência de todos.” O Papa lembrou então os marinheiros vítimas da guerra e os migrantes que morreram no mar: “A terra, o céu e o mar foram criados para a vida e a paz”, exclamou.

“Olhemos para Jesus, que se apresenta como o Rei da Paz, enquanto a guerra se alastra ao seu redor”, foi o convite no início de sua homilia, na qual Leão lembrou o retrato de Jesus percorrendo o Caminho da Cruz: “Fiquemos atrás dele, sigamos seus passos. E caminhando com ele, contemplemos sua paixão pela humanidade, seu coração partido, sua vida que se torna um dom de amor.” “Aquele que permanece firme na mansidão, enquanto outros se agitam com a violência. Aquele que se oferece como um carinho para a humanidade, enquanto outros empunham espadas e paus. Aquele que é a luz do mundo, enquanto as trevas estão prestes a cobrir a terra. Aquele que veio trazer a vida, enquanto o plano para condená-lo à morte se cumpre.”

“Como Rei da Paz, Jesus quer reconciliar o mundo no abraço do Pai e derrubar todos os muros que nos separam de Deus e do nosso próximo, porque Ele é a nossa paz”, assegurou o Pontífice.

Leia a íntegra da homilia do Papa Leão XIV

Queridos irmãos e irmãs,

Enquanto Jesus percorre o caminho da cruz, coloquemo-nos atrás d’Ele, sigamos os seus passos. E, caminhando com Ele, contemplemos a sua paixão pela humanidade, o seu coração que se parte, a sua vida que se torna dom de amor.

Olhemos para Jesus, que se apresenta como Rei da paz, enquanto à sua volta se prepara a guerra. Ele, que permanece firme na mansidão, enquanto os outros se agitam na violência. Ele, que se oferece como uma carícia para a humanidade, enquanto outros empunham espadas e paus. Ele, que é a luz do mundo, enquanto as trevas estão prestes a cobrir a terra. Ele, que veio trazer a vida, enquanto se cumpre o plano para o condenar à morte.

Como Rei da Paz, Jesus quer reconciliar o mundo no abraço do Pai e derrubar todos os muros que nos separam de Deus e do próximo, porque «Ele é a nossa paz» (Ef 2, 14).

Como Rei da paz, entra em Jerusalém montado num jumento, não num cavalo, cumprindo a antiga profecia que convidava a exultar pela chegada do Messias: «Eis que o teu rei vem a ti; / Ele é justo e vitorioso; / vem, humilde, montado num jumento, / sobre um jumentinho, filho de uma jumenta. / Ele exterminará os carros de guerra da terra de Efraim / e os cavalos de Jerusalém; / o arco de guerra será quebrado. / Proclamará a paz para as nações» (Zc 9, 9-10).

Como Rei da paz, quando um dos seus discípulos desembainha a espada para o defender e fere o servo do sumo sacerdote, imediatamente Ele o detém, dizendo: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada» (Mt 26, 52).

Como Rei da paz, enquanto era carregado com os nossos sofrimentos e traspassado pelas nossas culpas, Ele «não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador» (Is 53, 7). Não se armou, nem se defendeu, nem travou nenhuma guerra. Manifestou o rosto manso de Deus, que sempre rejeita a violência, e, em vez de se salvar a si mesmo, deixou-se cravar na cruz, para abraçar todas as cruzes erguidas em cada tempo e lugar da história da humanidade.

Irmãos, irmãs, este é o nosso Deus: Jesus, Rei da paz. Um Deus que rejeita a guerra; que ninguém pode usar para justificar a guerra; que não escuta mas rejeita a oração de quem faz a guerra, dizendo: «Podeis multiplicar as vossas preces, que Eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue» (Is 1, 15).

Olhando para Ele, que foi crucificado por nós, vemos os crucificados da humanidade. Nas suas chagas vemos as feridas de tantas mulheres e homens de hoje. No seu último grito dirigido ao Pai ouvimos o choro de quem se encontra abatido, sem esperança, doente, sozinho. E, sobretudo, ouvimos o gemido de dor de todos aqueles que são oprimidos pela violência e de todas as vítimas da guerra.

Da sua cruz, Cristo, Rei da paz, ainda clama: Deus é amor! Tende piedade! Deponde as armas, lembrai-vos de que sois irmãos!

Com as palavras do Servo de Deus, o bispo Tonino Bello, gostaria de confiar este clamor à Maria Santíssima, que está ao pé da cruz do Filho e chora também aos pés dos crucificados de hoje: «Santa Maria, mulher do terceiro dia, dá-nos a certeza de que, apesar de tudo, a morte já não terá mais poder sobre nós. Que os dias das injustiças dos povos estão contados. Que os clarões das guerras se estão a reduzir a luzes crepusculares. Que os sofrimentos dos pobres chegaram aos seus últimos suspiros. […] E que, finalmente, as lágrimas de todas as vítimas da violência e da dor em breve secarão, como a geada ao sol da primavera» (Maria, mulher de nossos dias).

* Secretariado para a Comunicação em Roma

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