Indígenas dizem não ao cavalo de Troia oferecido pelo Governo de Roraima

Assembleia reúne indígenas da Região do Baixo Cotingo com representantes de 36 comunidades. Fotos: Izaias Nascmento

Povos indígenas, reunidos em Assembleia, nos dias 26 a 30 de novembro, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, discutiram temas que afetam diretamente suas vidas.

Por Izaias Nascimento *

A discussão, na programação do encontro assembleia, versou sobre educação, saúde, transporte, política partidária, pecuária e principalmente o projeto de grãos que o Governo de Roraima oferece às comunidades indígenas da Reserva Raposa Serra do Sol.

Segundo os autores do projeto, o Governo tem por objetivo levar o desenvolvimento as comunidades indígenas daquela região oferecendo oportunidades de desfrutarem de uma boa moradia, possuir bens matérias, dinheiro, boas estradas e trabalho digno. No entanto, no dia reservado ao governo, para explicar melhor o projeto, nenhum representante compareceu. Governo de Roraima esqueceu de dar explicações acerca dos impactos ambientais e das mudanças drásticas que o projeto de grãos provoca nas populações, tanto às suas culturas como às suas tradições, sem direito a volta.

Fazendo uma alusão à célebre obra de Homero, a “Ilíada”, onde é narrado a grande guerra entre gregos e troianos, quando os gregos depois de anos guerreando nas sombras do impenetrável muro da cidade troiana, tiveram a brilhante ideia de presentear os troianos com o belíssimo cavalo de madeira, pois sabiam, que os troianos, eram amantes de cavalos e bons cavaleiros. O que os troianos não esperavam era que o cavalo, no seu interior, levava escondido soldados gregos que, ao anoitecer, abririam os portões da cidade permitindo o ingresso de suas tropas, decretando a extinção do povo troiano.

Algo assim, ameaça a vida dos povos nativos da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. O Governo, ao vender a ideia de progresso, tenta persuadi-los, oferecendo o cultivo de grãos, com o fim de entrar legalmente e usufruir das terras homologadas. Contudo, a comunidade indígena, embora tivesse balançado com a proposta do governo encontraram forças para dizer não ao “cavalo de Troia”.

Ao começar com a votação, que decidia acerca da entrada do projeto, tuxauas, sem muito esclarecimento acerca da proposta, já estavam prontos para dizer sim ao governo, porém foram contidos pelo voto contrário da maioria da juventude indígena, com direito a voto, pois nas assembleias indígenas, todos têm direito a votar acerca de temas que dizem respeito à vida da comunidade.

Graças ao voto da maioria da juventude, o projeto de grãos, foi rejeitado, porém não significa que todas as comunidades desistiram dele. O certo é que a população indígena, ganha tempo para resistir contra essa ameaça eminente que ronda a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Em suma, nota-se uma juventude atenta aos acontecimentos, comprometida com sua comunidade e disposta a ajudar suas lideranças tradicionais, dizerem não a todos os tipos de projetos predatórios que visam a destruição do meio ambiente e dos povos que nele vivem.

* Padre Izaias Nascimento, IMC, trabalha em Roraima.

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