
Se a pandemia de Covid-19 trouxe sofrimento para todos nós imaginem para os imigrantes venezuelanos, indígenas e não indígenas, que já se encontravam numa situação crítica em Boa Vista, capital do estado de Roraima!
Por Isaack Mdindile *
Estou falando da realidade dos imigrantes, particularmente das 850 pessoas que desde marco de 2019 ocupavam espaço do antigo Jóquei Clube em Boa Vista onde formaram a comunidade Ka Ubanoko (dormitório comum na língua warao). Nela, liderados por caciques, os moradores organizaram a vida e a gestão do espaço compartilhado por indígenas das etnias warao, pemon, eñepa e kariña, e por não indígenas.
A Equipe Itinerante dos Missionários da Consolata que trabalha na acolhida dos imigrantes em Boa Vista, acompanha a comunidade Ka Ubanoko desde o seu início.
Despejo forçado

No dia 17 de setembro de 2020, a Operação Acolhida comunicou a ordem de despejo da comunidade Ka Ubanoko e deu o prazo até dezembro 2020 para desocupar o local. A decisão foi tomada pela Força Tarefa do Exército brasileiro apesar de não contar com a aprovação das entidades que fazem parte da Operação Acolhida. Após negociação com as lideranças, o prazo foi estendido, mas no início de janeiro 2021 as famílias tiveram que sair. Alguns não indígenas foram para os abrigos, outros alugaram casas ou foram para outras cidades. Os indígenas por sua vez, foram transferidos para os Abrigos Pintolândia e principalmente Jardim Floresta.
Apenas 26 famílias de venezuelanos continuam no local, mas deverão desocupar o espaço até 29 de janeiro, e se houver resistência atuará a força policial. É um despejo incompreensível em meio à pandemia agravando a situação dos imigrantes. A decisão, mais uma vez, veio pronta e imposta.
Os indígenas não se adaptam ao esquema do Abrigo e podem terminar nas ruas causando mais problemas. A vida no Jardim Floresta é muito diferente: não podem se organizar em grupos com suas lideranças, perderam a liberdade comprometendo seus usos e costumes. O certo seria ter um Abrigo adaptado culturalmente com o modo de viva desse povo, com a possibilidade de preparar suas próprias refeições, celebrar sua cultura e culto, pois em suas tradições as decisões são tomadas em conjunto sob a coordenação dos caciques.

Diante da dificuldade, um grupo de famílias está se organizando para comprar terrenos. As 26 famílias que nos próximos dias deverá deixar o Ka Ubanoko, prefere alugar casas, mas não tem condições de apagar o aluguel.
Apoio da Igreja local e instituições
Nós da Equipe Itinerante dos Missionários da Consolata, juntamente com a Caritas Diocesana, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Fundação Fé e Alegria dos Jesuítas, estamos acompanhando todo esse processo sempre ao lado dos imigrantes.
É importante sublinhar a necessidade de trabalhar juntos com a Igreja local e ajudar todos independentemente de sua confissão de fé. Se antes da desocupação do Ka Ubanoko já era difícil atender os imigrantes num só local, agora o trabalho será de itinerância mesmo, buscando apoiar essas e outras famílias vivendo em situações precárias com muitas crianças em diversos lugares da cidade.

Além de ajudar com alimentação, em especial das crianças, medicamentos, apoio para documentação e assistência à saúde, a proposta é ajudar no aluguel dessas 26 famílias, por um tempo determinado. Vamos também, oferecer assistência religiosa aos que desejarem, na comunidade Nossa Senhora do Livramento que fica perto do Abrigo Jardim Floresta.
Juntos como missionários discípulos de Jesus Cristo, que também foi migrante, vamos acompanhar a situação desses nossos irmãos e irmãs venezuelanos com nossa solidariedade e orações.
* Padre Isaack Mdindile, IMC, trabalha na Equipe Itinerante em Boa Vista (RR).