Etiópia precisa manter a esperança e construir o futuro

“A Etiópia encontra-se hoje numa encruzilhada crucial e não sabemos qual direção tomará”. A afirmação é do Bispo do Vicariato de Meki, Dom Abraham Desta, em Roma para compromissos onde é hóspede na Casa Geral do IMC. Em entrevista, ele fala da situação no seu país, golpeado por um conflito que dura mais de um ano e sobre o papel que a Igreja poderia desempenhar na busca de soluções para o futuro.

Por Jaime C. Patias *

Preocupado, o Papa Francisco, depois do Angelus de domingo 7 de novembro, recordou novamente o sofrimento da Etiópia e rezou “por aqueles povos tão duramente provados” e pela paz, “para que a concórdia fraterna e o caminho pacífico do diálogo possam prevalecer”.

Neste sentido, Dom Abraham avalia que “a Etiópia se encontra hoje numa encruzilhada crucial e não sabemos qual direção tomará. É um momento muito delicado em que temos de rezar muito, pelo povo, por aqueles que sofrem, por aqueles que estão morrendo”, exorta o bispo de Meki e diz: “Não quero apontar o dedo a ninguém, mas, neste momento, não estamos na direção certa. As pessoas precisam se sentar e dialogar, ninguém deve ser deixado de fora neste processo e ninguém deve ser perseguido. Acusando-nos uns aos outros, não vamos a lugar nenhum”, observa Dom Abraham, à frente do Vicariato de Meki desde 2003.

A Etiópia é um país de 115 milhões de habitantes com um grande patrimônio cultural que se expressa em mais de 80 línguas. O Bispo sublinha esta riqueza e a capacidade de viver em harmonia. “Agora, não posso explicar o que correu mal, mas há algo de errado com o nosso país e tudo o que está acontecendo. As pessoas envolvidas devem ser capazes de parar e analisar o passado, ver o presente e pensar no futuro: para alcançar a paz e harmonia que o Papa exige, temos de nos empenhar neste caminho. Não devemos continuar acusando ninguém. Tenho dificuldades em entender o que está acontecendo, mas as pessoas estão sofrendo em todos os cantos do país”, lamenta o bispo etíope.

Trabalhar e rezar juntos pela paz
100 anos da presença IMC na Etiópia em 2016. Missa presidida pelo Cardeal de Addis Ababa, Dom Souraphiel Berhaneyesus e Dom Abraham Desta, Bispo de Meki. Foto: Arquivo IMC

Dom Abraham Desta insiste no diálogo e na oração para que “as pessoas tenham bom senso e fé em Deus, sejam capazes de dizer basta a tanto sofrimento e se sintam dispostas a sentar-se e a falar, se empenhem na reconstrução do país convencidas de que para o fazer devemos cuidar umas das outras”, explica o bispo e adverte: “Se não estivermos dispostos a parar e pensar antes de falar ou agir, podemos correr o risco de tomar o caminho errado nesta encruzilhada da nossa história”.

Dom Abraham recorda que, hoje, mais do que nunca, a Igreja Católica tem o dever e a responsabilidade de proclamar o Evangelho da paz, de ser um sinal profético de reconciliação. “Como Conferência Episcopal, lembramo-nos que somos a favor da justiça e da paz, e como líderes espirituais não nos podemos envolver em assuntos políticos. Devemos ser neutros para dialogar com todos e fazer o nosso melhor para aproximar as partes em conflito”.

Nascido em 1951 em Sebeya, região do Tigre, norte da Etiópia, Dom Abraham formou-se no seminário Adigrat com os Missionários de África (Padres Brancos), foi ordenado sacerdote em 1980 e continuou os seus estudos na Irlanda e depois em Londres com os Jesuítas. Obteve uma licença em teologia dogmática e diplomas em desenvolvimento comunitário e teologia pastoral. Quando regressou à Etiópia em 1985, eram anos de grande fome e guerra civil. Foi reitor do seminário menor em Adigrat, secretário do bispo e responsável pela pastoral, depois chanceler e diretor do Secretariado diocesano. Em 2003, foi nomeado Bispo de Meki.

Estar sempre perto do povo

Esta é a sua primeira viagem ao estrangeiro desde que eclodiu a pandemia de Covid-19. “Durante este tempo perdemos muitos amigos e missionários queridos, em particular quero recordar o Padre Paolo Angheben, que foi um grande missionário da Consolata, um homem de fé e oração que trabalhou conosco durante muitos anos, especialmente no Vicariato de Meki e foi uma das vítimas do Covid-19. Certamente ele está rezando por nós no céu”, diz Dom Abraham.

“Durante a pandemia – continua o Bispo – em contato com os nossos parceiros internacionais e o governo, distribuímos alimentos e materiais sanitários aos necessitados, divulgamos informação a todas as comunidades, paróquias e escolas tentando alertar para os perigos da Covid-19. Tentámos estar muito próximos das pessoas, como sempre tentamos fazer quando tem havido inundações, seca ou fome”.

Irmã Luisa Filipe missionária da Consolata moçambicana em missão na Etiópia. Foto: Arquivo MC
A ação da Igreja inclui a todos

Meki encontra-se a cerca de 130 km ao sul de Adis Abeba. A Igreja Católica na Etiópia utiliza dois ritos, o latino e o etíope, e trabalha em harmonia. Metade da população do Vicariato é cristã, os católicos são cerca de 37.000. “Mas a evangelização, que inclui trabalho pastoral e social, chega a toda a população”, sublinha Dom Abraham.

“Na área social, temos projetos para a educação, saúde para crianças e mulheres, desenvolvimento agrícola, segurança alimentar e bancos de cereais”. O Vicariato conta com o apoio da Caritas Internacional e fundações da Áustria, Alemanha, Itália e Espanha. Organizações como Manos Unidas e Catholic Relief Services, também apoiam.

“Obviamente o cuidado pastoral continua a ser a nossa prioridade porque através dele realizamos trabalho social, que está sempre integrado com a evangelização, como nos ensina o Evangelho: ‘Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância'” (Jo 10,10), explica Dom Abraham e sublinha: “O que propomos é um projeto de desenvolvimento humano integral: cada pessoa tem necessidades, tanto no campo espiritual como no campo material, pois são coisas que não podemos separar”. É por isso que o Escritório de Desenvolvimento e o de Pastoral trabalham em conjunto.

O pessoal disponível

O Vicariato de Meki conta com 21 sacerdotes diocesanos, religiosos e religiosas de oito congregações, incluindo os Missionários da Consolata. Tem seis seminaristas na teologia e filosofia, e outros 16 no ensino médio. Na pastoral está organizado em quatro zonas com os seus respectivos coordenadores. As escolas são 39 entre primárias e secundárias. As paróquias têm 78 catequistas a tempo pleno e centenas de voluntários. O seu trabalho de evangelização e promoção humana é apoiado pelo Centro de Formação para catequistas e animadores. Mil trabalhadores empregados de acordo com as leis do país acompanham os projetos.

Ao longo dos anos, “os missionários e missionárias da Consolata que trabalharam no Vicariato semearam muito e regaram as plantas que cresceram”, recorda Dom Abraham, “e nós continuamos a cuidar do que foi semeado. Ainda hoje, os missionários da Consolata continuam a trabalhar em áreas difíceis como nas missões de Weragu e Gambo. “Quero aproveitar esta oportunidade para lhes agradecer pelo trabalho que têm feito e continuam a fazer”.

O Bispo recorda com muito carinho e estima, o Padre Giovanni Monti, IMC, (1933-2018). Abba Monti, como era conhecido, trabalhou no Vicariato de Meki durante muitos anos e em vários serviços. “Abba Monti é recordado por todos como um homem de Deus que dedicou a sua vida à oração, ao amor pela Igreja e pelo povo”, sublinhou ele. “Era um missionário humilde e dedicado que, mesmo enfermo e em tempos de sofrimento, perseverou e suportou sem queixas. Quatro anos após a sua morte, as memórias da sua vida santa e o seu entusiasmo missionário, no contexto difícil de Meki, são uma inspiração para muitos que se sentem seguros do seu amor e orações do céu”, testemunha o Bispo.

Padres Giovanni Monti, Dom Abraham Desta e Padre Ugo Pozzoli. Foto: Aquivo IMC

Atualmente, trabalham na Etiópia oito missionárias e cerca de 20 missionários da Consolata, em Adis Abeba, no Vicariato de Meki e no Vicariato de Nekemte.

Os desafios na evangelização

Dom Abraham aponta três grandes desafios na evangelização: falta de pessoal missionário, poucos recursos materiais para projetos e tensões na sociedade. “Tentamos manter o diálogo com o povo, mesmo com aqueles que pensam diferente. Temos um departamento de Justiça e Paz onde organizamos reuniões de líderes religiosos para dialogar e promover a paz”.

Segundo o Bispo, no trabalho de reconciliação “ninguém deve ser excluído. Toda a sociedade e grupos étnicos, cristãos e não cristãos, devem estar presentes para um diálogo de paz. Levamos muito a sério esta responsabilidade, assegurando-nos de que não estamos apenas do lado dos católicos, mas de toda a população. Isto é muito apreciado pelo povo”.

Sempre haverá esperança

O Bispo de Meki assim expressa a sua profunda esperança cristã. “Somos pessoas de esperança, não podemos fechar a porta à esperança. Se cooperarmos, haverá esperança, mas se continuarmos surdos e cegos, podemos perdê-la”, exorta e complementa. “Portanto, mantenhamos os nossos olhos e ouvidos abertos e abramos a boca apenas para dizer, sempre com verdade, o que precisa de ser dito. Estou convencido de que Deus nos guiará, mas para isso devemos rezar, acreditar e confiar n’Ele. Deus guiará a Sua Igreja e os líderes políticos”, conclui Dom Abraham.

* Padre Jaime C. Patias, IMC, é Conselheiro Geral para a América.

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