COP30: O apelo das Igrejas do Sul Global por justiça climática e a Casa Comum

Sala de Imprensa da Santa Sé em Roma. Secretária da Pcal, Emilce Cuda: “Ninguém se salva sozinho”. Fotos: Jaime C. Patias

“Um chamado por justiça climática e a casa comum: conversão ecológica, transformação e resistência às falsas soluções”. Este é o título do documento publicado pelas Igrejas da África, Ásia, América Latina e Caribe em vista da COP30 em novembro de 2025 no Brasil e apresentado esta terça-feira, 01 de julho, na Sala de Imprensa da Santa Sé em Roma.

Por Jaime C. Patias *

O texto escrito pelo Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (Secam), a Federação das Conferências Episcopais da Ásia (Fabc), o Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), e coordenado pela Pontifícia Comissão para a América Latina (Pcal) propõe-se promover “uma verdadeira conversão ecológica e mudar os paradigmas do capitalismo”.

Le Chiese del sud globale presentano il documento a Papa Leone XIV. Foto: Vatican Media
“Não há justiça climática sem conversão ecológica”

“O documento não é um gesto isolado. É fruto de um processo sinodal de discernimento espiritual e comunitário entre Igrejas irmãs do Sul global: África, Ásia e América Latina e Caribe”, explicou o cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre (Brasil), Presidente do CELAM e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Conheça o Documento na íntegra

“Ele contém os principais pontos de defesa, propostas e denúncias feitas pela Igreja, de acordo com o Magistério do Papa Francisco e do Papa Leão XIV, em relação à crise climática e aos temas em discussão na COP30. Apresentamos este documento hoje ao Papa Leão XIV e queremos que ele seja levado em consideração durante a fase preparatória da COP30. A sua mensagem é clara: não há justiça climática sem conversão ecológica, e não há conversão ecológica sem resistência às falsas soluções”, sublinhou o cardeal Spengler .

Cardeal Jaime Spengler: “não há justiça climática sem conversão ecológica

“Denunciamos o mascaramento de interesses sob nomes como ‘capitalismo verde’ e ‘economia de transição’, que perpetuam lógicas extrativistas e tecnocráticas. Rejeitamos a financeirização da natureza, os mercados de carbono, as chamadas ‘monoculturas energéticas’ sem consulta prévia, a recente abertura de novos poços de petróleo, ainda mais grave na Amazônia, e a extração abusiva em nome da sustentabilidade”.

Segundo o cardeal, a conversão tem um preço: “Ou temos a coragem de tomar decisões ou colocaremos em risco o futuro das próximas gerações”.

O apelo das Igrejas do Sul Global

Este apelo conjunto das Igrejas do Sul Global se insere na perspectiva da próxima COP30, prevista para Belém, Brasil, de 10 a 21 de novembro de 2025, em prol da “equidade, justiça, proteção” em defesa dos povos indígenas, dos ecossistemas, das comunidades empobrecidas e das pessoas vulneráveis, como os jovens, as mulheres e os idosos.

A presença do cardeal Michael Czerny, Prefeito do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

O texto inspira-se na Laudato sì, do Papa Francisco, e no apelo do Papa Leão XIV para enfrentar “as feridas causadas pelo ódio, violência, preconceitos, pelo medo da diferença e por um paradigma econômico que explora os recursos da Terra e marginaliza os mais pobres”.

A coletiva de imprensa contou ainda com a presença da secretária do Pcal, a argentina Emilce Cuda, do cardeal Filipe Neri Ferrão, arcebispo de Goa e Damão, Índia, presidente do Fabc e do cardeal Fridolin Ambongo Besungu, arcebispo de Kinshasa, RD Congo, e presidente do Secam.

“Ninguém se salva sozinho”

“As Igrejas particulares do Sul Global, conscientes de que ‘ninguém se salva sozinho’, começaram a construir pontes como expressão da catolicidade que as constitui”, disse Emilce Cuda. “O resultado deste trabalho comunitário é o documento conjunto que hoje apresentam ao Papa e à imprensa, como antecipação do que será apresentado daqui a cinco meses em Belém. A mensagem é assim “uma expressão concreta da capacidade de superar divisões e ideologias” porque “ou nos unimos ou nos afogamos”, disse.

“África é um continente saqueado”
Cardeal Fridolin Ambongo: “África não é um continente pobre, é um continente saqueado”

O cardeal Fridolin Ambongo Besungu falou em nome do continente africano, “uma terra rica em biodiversidade, minerais e cultura, mas empobrecida por séculos de extrativismo, escravidão e exploração. África não é um continente pobre, mas um continente saqueado”, denunciou. E hoje “o continente que menos polui está pagando o custo da poluição global. Por isso, é contraditório utilizar os lucros da extração de petróleo para financiar a transição”.

Neste sentido, explicou o cardeal, o documento “descreve em 10 pontos os compromissos e as responsabilidades dos poderosos do mundo e apresenta 10 pedidos específicos, com apelos à ação, incluindo uma série de esforços empreendidos pela própria Igreja Católica”.

Mudar corações

“A nossa mensagem de hoje não é diplomática, mas pastoral”, explicou o cardeal Filipe Neri Ferrão. “É um apelo à consciência face a um sistema que ameaça devorar a criação, como se o planeta fosse apenas mais uma mercadoria. Não se trata apenas de mudar as políticas, mas de mudar os corações”.

Cardeal Filipe Neri Ferrão. “É um apelo à consciência face a um sistema que ameaça devorar a criação”.

“É necessário que os países mais desenvolvidos reconheçam e assumam a sua dívida social e ecológica, uma vez que são historicamente responsáveis pela extração de recursos naturais e pelas emissões de gases com efeito estufa. Estima-se que a dívida climática do Norte global atinja 192 triliões de dólares até 2050”.

A COP30 no Brasil representa, portanto, um momento decisivo para a humanidade também atingida pela guerra: “Queremos que não seja apenas mais um evento, mas um ponto de virada moral. E como disse o Papa Leão XIV, precisamos de amor e unidade para ‘construir um mundo novo onde reine a paz’”, concluiu.

O documento apresenta os compromissos da Igreja: a defesa dos mais fracos nas decisões sobre o clima e a natureza; a promoção de sistemas baseados na solidariedade, na “sobriedade feliz” e nos princípios da sabedoria ancestral; o reforço de uma aliança intercontinental entre os países do Sul Global; mas também a criação de um “observatório da justiça climática” para monitorizar os resultados das COP.

* Padre Jaime C. Patias, IMC, Secretariado geral para Comunicação.

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