Bispo de Roraima visita comunidades da Região das Serras

Fotos: Philip Njoroge

Era ainda madrugada do Dia de Natal quando partiram da sede da diocese em Boa Vista, o Bispo de Roraima, Dom Mário Antônio da Silva, o Padre Philip Njoroge, IMC, e a presidente do Conselho dos Leigos de Roraima, Josélia, para uma visita de cinco dias às comunidades da Região das Serras, na Terra Indígena Raposa Serra do Sol

Por Stephen Ngari *

O objetivo da viagem, durante as celebrações natalinas, foi visitar as comunidades indígenas para inaugurar duas igrejas, um Centro de Produção com Cozinha de Medicina Tradicional e um Retiro (fazendinha) para criação de gado em apoio aos catequistas. Todos esses lugares e iniciativas são significantes na vida do povo Macuxi que vive nas Serras, região alta e montanhosa da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TIRSS) homologada pelo Presidente da República em 2005 em área contínua de 1.747.464 hectares. As outras três regiões são Surumu, Baixo Cotingo e Raposa no lavrado, uma área baixa e plana.

Depois de uma parada na comunidade São Mateus na entrada da TIRSS, onde foram recebidos pelo tuxaua Jacir de Sousa e sua esposa, a catequista Eldina, a equipe seguiu viagem ruma à comunidade Tabatinga, uns 300 km de Boa Vista, subindo as serras. Na chegada, o Padre James Murimi, que trabalha em Maturuca e as lideranças das comunidades do Centro Karaparu acolheram os visitantes.

Na comunidade Tamanduá destacou-se a união e o sacrifício das pessoas que com seus próprios recursos ergueram a igreja, dedicada a São Jorge. No tempo da invasão dos não indígenas, Tamanduá era uma vila dos garimpeiros. No terreno onde a igreja foi construída funcionavam os botecos e as bancas do garimpo que vendiam bebidas alcoólicas que para os povos indígenas passou a ser sinal de divisão e dominação. Os “brancos” usam a cachaça para manipular e criar conflitos entre os indígenas. A comunidade unida é sinal de esperança que derrota o mal e afasta os sinais de morte.

Participaram da celebração cerca de 200 pessoas. No dia de Natal, o Bispo comparou os males que afetam os indígenas com as trevas que dominavam os povos antes de nascimento de Jesus: ameaças das suas terras pela ganância dos invasores, a falta de serviços básicos de saúde e educação, e as infraestruturas precárias. “Belém não está mais na Judeia, mas na Tamanduá, na Região das Serras no coração de cada indígena”, observou o Pastor ao destacar que são essas as trevas que Jesus veio iluminar para dar esperança ao povo Macuxi.

No almoço, além de saciar a fome, confraternizar e celebrar a inauguração da igreja, o povo louvou e agradeceu a todos que, com seus trabalhos nas roças, criação de gado (Projeto “uma vaca para o Índio”), galinhas, porcos e peixe produzem o suficiente para o seu sustento.

Centro de Produção

No Natal à tarde aconteceu inauguração do Centro de Produção Tamanduá com Cozinha de Medicina Tradicional Indígena “Dionito José de Souza”. O objetivo da cozinha é produzir remédio tradicional a partir da biodiversidade do conhecimento dos povos indígenas a ser distribuído nas comunidades. Servirá também como espaço para cursos.

A cozinha homenageia Dionito José de Souza, liderança Macuxi histórica da demarcação e homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, que foi uma das vítimas da Covid-19 em junho de 2020, com apenas 52 anos. Ele ocupou vários cargos nas organizações indígenas entre os quais o de coordenador geral do Conselho Indígena de Roraima (CIR), nos anos 2007-2017. Dionito sempre sonhou com um Centro de Produção e distribuição de medicamentos, sonho este que agora será levado adiante pela sua esposa Edilasomara Sampaio, indígena taurepang.

A área de Tamanduá também enfrenta uma grande ameaça. O governo federal pretende fazer uma barragem para produção da energia hidrelétrica no local. Para enfrentar essa ameaça de uma possível inundação das terras, a região das Serras criou nessa comunidade e o Centro de Produção. O Bispo agradeceu aos sonhadores e realizadores do projeto e lendo um trecho de Gênesis (Gn 1, 11-12; 27-31) destacou a obra como uma iniciativa que não só dá saúde de qualidade ao povo mas valoriza a ecologia, a criação de Deus.

Comunidade Maturuca

No dia 26 pela manhã, Dom Mário celebrou missa na comunidade Maturuca onde houve renovação dos compromissos de três ministros extraordinários da Sagrada Comunhão. O Bispo louvou a Deus pelo crescimento da fé na comunidade que tem dois seminaristas: um diocesano, Djavam, começando os estudos de teologia e outro da Consolata, Epukkena Aparecido, que deve começar a filosofia. “A fé cresce na medida em que é partilhada” e como afirmou Santa Madre Teresa, “ninguém é tão pobre que não tem nada a partilhar e ninguém é tão rico que não precisa de nada”. O ser humano cresce e se fortalece na partilha.

Na parte da tarde o bispo teve uma reunião reservada com as lideranças da Região, presentes na comunidade Maturuca.

Na sede do município Uiramutã

No dia 27 algo inédito aconteceu. Depois de mais de 20 anos, a comunidade na sede do município Uiramutã pode celebrar uma missa com a bênção do terreno da igreja em construção. O tuxaua Jacir de Souza lembrou que, a última missa nem terminou. Isso por que, o Padre Luciano Stefanini, IMC, teve que escapar pela janela do fundo do presbitério para fugir dos pistoleiros, garimpeiros e fazendeiros. Na ocasião, as mulheres presentes barram a entrada da igreja impedindo a ação do grupo enquanto o padre fugia. Mais tarde, a igreja foi derrubada e nunca mais houve celebração no local.

A reconstrução da igreja é mais uma vitória dos povos indígenas. De fato, é um monumento da comunhão e da união que faz a força. Um benfeitor através dos missionários da Consolata contribuiu para a compra do material, a diocese doou o pedreiro, um comerciante na vila colaborou com o transporte e as comunidades entraram com madeira e mão de obra.

Este ano, o município celebra outro feito inédito. Pela primeira vez conseguiu eleger um Prefeito indígena, o tuxaua Benisio (Rede), integrante do movimento indígena, morador da comunidade Pedra Branca. Presente na celebração ele agradeceu a confiança e se colocou à disposição para ajudar a comunidade. O Estado de Roraima elegeu ao todo, 15 candidatos indígenas: 2 prefeitos, 3 vice-prefeitos e 10 vereadores em diversos municípios.

Criação de gado

Dom Mário teve uma experiência excepcional ao visitar uma área remota de difícil acesso, na segunda-feira dia 28, onde abençoou o Retiro (criação de gado) para sustentação dos trabalhos dos catequistas. Os buracos, as pedras, igarapés sem pontes castigaram o carro ao pondo de perder uma roda. Graças a Deus, foi socorrido e prosseguiu a viagem.

O Bispo agradeceu o esforço do povo neste caminho da sustentabilidade. Apesar das ameaças e falta do apoio do poder público eles mostram muita resistência. Após a bênção da casa do caseiro e dos animais (gado, carneiros, patos e galinhas), a coordenadora Deolinda Melchior, agradeceu a contribuição dos benfeitores do Canadá e das comunidades que concretizaram o projeto.

Padre Philip se despede da Região

De volta à Maturuca, Dom Mário Antônio presidiu mais uma missa, desta vez em ação de graças pela vida e missão do Padre Philip Njoroge, que trabalhou na Região das Serras por seis anos e agora se prepara para regressar ao Quênia, sua terra. O Bispo agradeceu pelos trabalhos e pela doação do Padre Philip na missão entre os povos indígenas. Agradeceu também, ao Instituto Missões Consolata lembrando que, desde a sua chegada à diocese em 1948, sempre se dedicou ao serviço das comunidades indígenas.

Em seguida, a comunidade também prestou sua homenagem. As famílias deram testemunho de como o Padre se fez presente na vida delas nos momentos de alegrias e tristezas. A comunhão continuará devido às marcas deixadas no coração do povo Macuxi.

Padre Philip, por sua vez, testemunhou como aprendeu a ser humilde e feliz com as pessoas mesmo em meio aos sofrimentos e cansaços. Agradeceu imensamente a presença do Padre James Murimi e do Irmão Francisco Bruno, os colegas de missão com quem formou uma verdadeira comunidade. Disse que, em todos os projetos realizados, ele foi apenas um canal que transmitiu a graça de Deus e o apoio dos colaboradores com a causa indígena.

Coração transbordando de alegria e paz

No dia 29 de dezembro, às 5h30 da manhã, o sino tocou e a comunidade se reuniu na casa da missão para se despedir do seu Pastor. Depois da leitura do Evangelho do dia que destacava as palavras de Simeão quando segurou nos braços o Menino Jesus, o Dom Mário se despediu. Ele admitiu o cansaço das viagens, mas confessou estar com o coração transbordando de alegria e paz.

As mulheres e crianças conduziram o Bispo até a Gruta da Nossa Senhora Consolata em frente à igreja. Antes da bênção, a oração do povo para o bispo e deste para o povo foi para que a Mãe de Jesus cuide dos seus filhos e filhas na vida e na missão.

À caminho de Boa vista, uma parada na família do seminarista Djavam para o café da manhã. A família também possui criação de gado, carneiros, porcos, galinhas e patos. O Bispo abençoou a água ser usada pelos vaqueiros para aspergir os animais e as roças. Ele agradeceu a família por doar o seu filho para servir a Igreja e prometeu oração e comunhão em todos os momentos.

Na última comunidade, São Mateus, antes de sair da Terra Indígena houve uma última parada para abençoar os produtos agrícolas, artesanatos, pratos típicos, animais e até uma criança recém-nascida no berço (foto). Tinha também, instrumentos de trabalho e marcenaria. O pajé, senhor Matias estava presente com todo tipo de plantas medicinais e alguns remédios já preparados.

A comunidade aproveitou para homenagear o Padre Philip e o Bispo. O tuxaua lembrou como o Padre marcou suas vidas. A construção da igreja, um Posto de Saúde e projetos de auto-sustentabilidade são marcas visível. As palavras do Evangelho e seu testemunho de humildade e proximidade impactaram na vida e no coração das pessoas da comunidade São Mateus.

* Padre Stephen Ngari, IMC, é queniano e trabalha em Roraima.

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