Padre Philip Njoroge: abraçar a causa indígena com a alma

21 de fevereiro de 2021

Após 12 anos de trabalho no Brasil, seis deles entre os Povos Indígenas de Roraima, o missionário da Consolata retorna ao Quênia sua terra natal. “O nosso trabalho entre os Povos Indígenas é de presença deixando que eles sejam protagonistas de suas vidas, evitando o paternalismo”.

Por Philip Njoroge Njuma *

Nasci no dia 25 de junho de 1975, no Quênia. Fiz meus estudos da escola fundamental, ensino médio e faculdade no meu país, antes de ingressar no Instituto Missões Consolata (IMC). Meu primeiro contato com a congregação foi no ensino médio, porque já tinham entregue a minha Paróquia Gaichanjiru bem antes de eu nascer para os combonianos, que a passaram para a diocese.

Entrei no seminário em 2003 para fazer os estudos do propedêutico e logo depois, três anos de filosofia. Fiz meu noviciado em Sagana no Quênia em 2007 e 2008, e estudei teologia em São Paulo no Brasil, onde cheguei em agosto de 2008. Estudei a língua portuguesa em Cascavel (PR) por três meses, antes de começar a teologia em 2009, na Escola Dominicana de Teologia. Após a Teologia, fiz o meu ano de serviço pastoral em Feira de Santana na Bahia que se concluiu com a profissão perpétua no dia 11 de maio de 2013. Em seguida fui ordenado diácono em Salvador (BA) no dia 19 de maio de 2013. Logo após participar na Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro (RJ) com a juventude da Bahia, viajei para o Quênia para preparar a minha ordenação presbiteral.

Padre Philip Njoroge saúda a comunidade São Mateus em Roraima. Foto: Jaime C. Patias
Ordenação

Fui ordenado no dia 15 de fevereiro de 2014 em Westlands e destinado para a Região da Amazônia no Brasil. Em agosto de 2014 comecei meu trabalho na missão Maturuca entre os Povos Indígenas Macuxi, Wapichana, Ingaricó, Patamona e Taurepang. O meu primeiro contato e experiência com os Povos Indígenas Tupi Guarani da Grande São Paulo, da Aldeia do Pico do Jaraguá no tempo dos meus estudos teológicos ajudou bastante a me inserir na realidade amazônica.

Os seis anos no meio do povo Macuxi da Terra Indígena Raposa Serra do Sol foram momentos de graça e aprendizagem. Encontrei um povo simples que não precisa muito para ser feliz. Aprendi com eles que, alegria não é um fruto de acúmulo da riqueza, mas, surge do coração. Isso facilitou meu trabalho como coordenador da missão e vice-superior na então Região IMC da Amazônia. Foi um período cansativo manter os dois cargos, mas, muito gratificante.

Sim à Comunidade

Os Povos Indígenas vivem a vida comunitária com alguns regimentos internos como: “Não à bebida alcoólica e sim à Comunidade”. Eles valorizam união, compromisso e vigilância. Admiro esse povo pela sua simplicidade e acolhida. Eles acompanham a missão com amor e carinho e fazem com que os missionários se sintam à vontade pela amizade e aceitação.

Padres Philip e James Murimi com lideranças de Maturuca na TIRSS em Roraima.

Os desafios são muitos, mesmo que não reclamemos, ao invés, busquemos superá-los. Em nossa área de atuação onde os missionários da Consolata estão presentes desde 1948, existem 75 comunidades que estão distantes umas das outras e algumas. As estradas são precárias e cheias de buracos. Devido à presença dos benefícios sociais, o povo fica acomodado sem querer produzir e criar muito, porque é mais fácil e menos cansativo comprar os produtos que cultivar e criar. Os jovens enfrentam o problema das drogas e bebidas alcoólicas. O abandono do poder público é total no âmbito da educação e saúde. Devido ao contato frequente com a cidade de Boa Vista, capital do estado, as Comunidades vão perdendo a sua língua materna no passado proibido nas escolas. Esse frequente contato com a cidade favorece o contágio e proliferação da pandemia de Covid-19 nas Comunidades. No âmbito da Igreja, mesmo comemorando 100 anos de evangelização na região das Serras onde trabalho, existe muita dependência das comunidades com a Missão. A maioria das pessoas pensa que a Igreja é do padre e que este deveria providenciar tudo. As Comunidades ainda não assumiram a Igreja na sua totalidade.

Um dos grandes desafios é o comodismo devido aos benefícios sociais. O nosso estilo de evangelização geralmente se solidariza mais na luta pelos direitos e pela terra e cobra menos os deveres do povo indígena. Há também falta de missionários com mais experiência, que poderiam acolher e inserir os novos que são a maioria na missão. Mesmo com tantos desafios, as palavras do escritor William Shakespeare nos anima: “é melhor acender a vela que amaldiçoar a escuridão”.

O nosso trabalho entre os Povos Indígenas é de presença deixando que eles sejam protagonistas de suas vidas, evitando o paternalismo”. Estou me despedindo da Amazônia que tanto amei. Regresso para minha terra sem me fechar à possibilidade de um dia voltar para somar forças com os demais missionários da Amazônia. Acredito que seis anos da missão no meio dos Povos Indígenas não são suficientes. Mesmo assim, comungando com suas alegrias e tristezas, valeram a pena e me ensinaram muito. Isso vai me ajudar a me doar ainda mais em qualquer outra Missão a mim confiada na minha terra natal.

Em Maturuca, monumento recorda a homologação da TI RSS em 2005.

Termino dizendo que a Missão é de todos nós. A causa indígena é de todo Instituto. Vamos abraçar essa causa com alma e coração e evitar só ficar nas conversas ou no mundo das ideias. Coloquemos as nossas mãos na massa. John F. Kennedy falou, “Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu país”. Eu também afirmo, baseado nesse grande pensador: “Não pergunte o que o Instituto pode fazer para você, mas, o que e como missionário da Consolata, você pode fazer pelo Instituto, colaborando na Missão segundo as suas capacidades e disponibilidades, sem desejo de poder, ganância ou preconceito junto ao povo”.

* Padre Philip Njoroge Njuma, imc, é missionário da Consolata. Publicado no site www.revistamissoes.org.br

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