Plataforma de Desinvestimento da Mineração é apresentada no Vaticano

Sala de Imprensa da Santa Sé em Roma, 20 de março de 2026. Fotos: Jaime C. Patias

A rede ecumênica “Iglesias y Minería” (Igrejas e Minaração),  que desde 2013 denuncia a violência associada à expansão das atividades de mineração na América Latina, com o apoio de mais de 40 instituições, lançou na Sala de Imprensa da Santa Sé em Roma, no dia 20 de março, a Plataforma de Desinvestimento em Atividades Extrativas que prejudicam o meio ambiente e as comunidades locais.

Por Jaime C. Patias *

A Rede é um espaço ecumênico composto por comunidades cristãs, equipes pastorais, congregações religiosas, grupos de reflexão teológica, leigos, bispos e pastores que buscam abordar os desafios impostos pelos impactos e violações dos direitos socioambientais causados pelas atividades de mineração.

Yolanda Flores

“Como podemos nos curar se vocês poluem nossas montanhas? Eu também quero saber se tenho metais pesados no meu corpo, se o que damos para nossos filhos comerem é tóxico. Porque esses problemas não são só meus. Façam essa pergunta também a vocês”, disse aos jornalistas, Yolanda Flores, ativista do povo aimará do Peru, que luta pelos direitos dos povos indígenas e foi uma das convidadas a dar seu testemunho durante a apresentação do projeto no Vaticano.

Vinda de áreas de grande interesse para a extração de minerais críticos, Yolanda explicou que, diante das repetidas violações dos direitos humanos, sua comunidade se deu um tempo para refletir e tentar descobrir quem está financiando a exploração dessas terras. “Queremos saber quem está fornecendo o dinheiro para nos destruir e envenenar. Estamos aqui para ver se alguém pode nos ajudar”, explicou ela.

Vestindo roupas tradicionais de sua cultura aimará, visivelmente emocionada, Yolanda testemunhou que, diante de crianças sofrendo de anemia, o Ministério da Saúde do Peru presumiu que as mães não sabiam como preparar alimentos e cuidar de seus filhos. “Mas eles nem sabem que tipo de água bebemos. Esse sofrimento nos obriga a continuar buscando informações. Quem financia as mineradoras que nos envenenam? Precisamos de profissionais e que nossos filhos possam ir para a universidade”, exclamou ela, e continuou: “Queremos que nossos bispos e párocos não apenas se dediquem aos sacramentos, mas que caminhem conosco. A resposta está dentro de nós, mas queremos sermos vistos e escutados para que o mundo entenda quem somos e por que estamos clamando justiça”, enfatizou.

Quando realmente colocaremos o Evangelho em prática?

“Sempre digo às freiras e aos padres que façam retiros, estudem a Bíblia, a encíclica Laudato sì, mas quando colocaremos em prática o que Jesus disse?”, perguntou Yolanda. “Quando caminharemos à luz do Evangelho? Precisamos cuidar da nossa Casa Comum e ter respeito por nós mesmos”, enfatizou. “Nós, povos indígenas, não somos povos violentos. Reagimos às violações dos nossos direitos porque invadem nossas terras sem nos consultar e depois vão embora, deixando tudo contaminado. Nas montanhas está a nossa farmácia natural, com a qual resistimos à pandemia da Covid-19. Essa sabedoria vem dos nossos ancestrais”, recordou.

“Uma vitória que nos alegra é ver uma mineradora em Laguna Choquene, na província de San Antonio de Putina, no Peru, limpando um rio e uma lagoa contaminados. Isso mostra que as empresas podem fazer melhor”, disse o ativista.

Estiveram presentes na Sala de Imprensa o cardeal Fabio Baggio, subsecretário do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral; o cardeal Álvaro Ramazzini, bispo de Huehuetenango, Guatemala; dom Vicente Ferreira, bispo de Livramento de Nossa Senhora, Brasil, e assessor da Rede Igrejas e Mineração; a Irmã Anneliese Herzig, das Missionárias do Santíssimo Redentor, chefe do Departamento de Missão e Assuntos Sociais da Conferência Episcopal Austríaca; a Irmã Maamalifar M. Poreku, Missionária de Nossa Senhora da África, originária de Gana; e o padre Dario Bossi, comboniano, coordenador da Rede Igrejas e Mineração.

Este é um ato de coerência com a nossa fé

“Os minerais são necessários para muitos aspectos da vida contemporânea. No entanto, também sabemos que, com muita frequência, sua extração ocorre sem ouvir as comunidades locais, sem respeitar os direitos dos povos indígenas e sem considerar os limites dos ecossistemas que sustentam a vida”, declarou o cardeal Baggio na abertura da conferência. A Plataforma para o Desinvestimento na Indústria Mineira pretende ser um sinal concreto dessa conversão necessária, que não é simplesmente uma decisão técnica ou financeira. “Este é um ato de coerência com a nossa fé, com a defesa da dignidade humana e com o compromisso de cuidar da nossa Casa Comum”, afirmou.

O cardeal Álvaro Ramazzini, bispo da Guatemala, reiterou o conceito de “ecologia integral” desenvolvido pelo Papa Francisco na encíclica Laudato Si’ e a opção preferencial pelos mais pobres, “não apenas no sentido literal das palavras”. Ele então relatou como uma mineradora canadense, a Gold Corp, “com o consentimento do governo da época, para não dizer, cumplicidade”, obteve uma licença para explorar uma área indígena pertencente ao grupo étnico Mam, um povo esquecido pelas instituições, sem acesso a serviços de saúde e educação de qualidade e com difícil acesso. Tendo comprado a terra a um preço irrisório, iludiu os moradores locais ao prosseguir com uma atividade formalmente legal, mas não guiada pelos critérios de justiça distributiva para as populações.

“A mineração é a espinha dorsal do capitalismo”

O bispo brasileiro, dom Vicente Ferreira, conselheiro da Rede “Igrejas e Mineração”, alertou para as falsas soluções do “capitalismo verde” e os cenários de guerra acelerada que “aumentam ainda mais as preocupações entre os povos da América Latina e do Caribe, cujos territórios estão na mira do neocolonialismo militar, ávidos por ‘terras raras’ como recurso para manter o status quo dos mais poderosos”. Ao falar sobre soluções para o problema, dom Vicente lembrou que “é de baixo que sonhamos com um mundo novo. Das comunidades quilombolas, dos povos indígenas, dos pescadores; da agroecologia e de todos aqueles que protegem as florestas, nossos rios… a criação”.

A Rede é formada por defensores dos direitos humanos e da natureza, muitos dos quais são perseguidos por suas escolhas. “A mineração é a espinha dorsal do capitalismo. Todos os outros setores importantes da economia global dependem, de alguma forma, da mineração. É, de fato, um setor muito poderoso. As ameaças residem na destruição do papel do Estado, da política, da justiça e das organizações sociais. Isso ocorre com enormes somas de dinheiro e discursos falaciosos sobre desenvolvimento; desestabiliza o modelo democrático, divide comunidades e líderes. Existem ameaças concretas aos defensores dos direitos humanos e do meio ambiente, com o assassinato de algumas pessoas”, denunciou o bispo.

A vitória reside na organização e resistência popular, na luta dos povos indígenas, como na Marcha dos Povos na COP 30 em Belém (2025), com participação recorde de povos indígenas (3.000) e a campanha intitulada “Nós Somos a Resposta”. “Tivemos também, grande participação em nossa Igreja. Isso é um sinal de que estamos despertando. A Campanha Fraternidade 2025 focou na ecologia integral, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Muitas pessoas estão alienadas, e o pior é quando adotam o discurso dos opressores. Acredito que esta campanha de Desinvestimento serve como um alerta. E não há neutralidade. A vida exige de nós uma escolha clara”, alertou dom Vicente em uma conversa ao final da conferência.

Desinvestimento como uma estratégia ética eficaz

O padre Dario Bossi, coordenador da Rede (foto acima), foi incumbido de esclarecer que a Plataforma apresentada no Vaticano é um espaço para troca de informações, estudo de aspectos da mineração e dos processos financeiros, e para convocação de colaboração. Padre Dario explicou, por exemplo, que, entre 2018 e 2022, precisamente durante os anos em que ocorreram graves crimes socioambientais cometidos por grandes empresas de mineração com operações no Brasil, como a Vale a Mariana e Brumadinho, que receberam mais de US$ 54 bilhões em financiamento internacional de bancos e fundos de investimento em diversos países. “Diante dessa realidade, muitas organizações sociais e eclesiais começaram a considerar o desinvestimento como uma estratégia ética e eficaz para lidar com as violações”, disse o padre Dario, citando documentos alinhados com a Doutrina Social da Igreja.

Uma Voz da África

As atividades de mineração estão por toda parte. A Irmã Maamalifar M. Poreku, missionária de Nossa Senhora da África, originária de Gana, reiterou que a “ecologia integral” exige não apenas compaixão, mas também transformação sistêmica. O caminho é “alinhar fé e escolhas econômicas”, segundo a religiosa, que usou palavras claras ao se referir a “territórios martirizados” sacrificados em nome do lucro. “A crise ecológica exige mais do que ajustes graduais; exige liderança profética”, afirmou. Nesse sentido, a plataforma também oferece orientação e aconselhamento sobre decisões financeiras e de consumo que estejam em consonância com o Evangelho, e que clamem pela proteção da criação e coloquem a fraternidade universal no centro de nossa atenção.

* Padre Jaime C. Patias, IMC, Assessoria de Comunicação em Roma.

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