A Casa Comum: para um diálogo que nos une a todos

10 de junho de 2020

“Esquecemos que nós mesmos somos terra (cf. Gn 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar nos permite respirar e a sua água nos vivifica e nos restaura” (Laudato Si’, 2).

Por Luís Ventura

A Encíclica Laudato Si’ chegou até nós com força profética. Um chamado para aguçar os sentidos e ouvir o grito dos povos e o grito da terra; para responder com criatividade e sem demora à grave crise ecológica, social e ética que estamos vivendo como família humana. Algumas chaves de leitura podem nos ajudar a abraçar o chamado que o Papa Francisco lança para nós.

Irmã mãe terra, lugar da aliança (LS, 1)

A terra é nossa irmã e nossa mãe: irmã, com quem compartilhamos a aventura da existência e o projeto criativo de Deus; mãe, a quem devemos reverência, gratidão e carinho, pois dela vem a vida. A Igreja na América Latina já havia recuperado este cântico de Francisco no Documento de Aparecida, em 2007. “Nossa irmã, a mãe terra, é nossa casa comum e o lugar da aliança de Deus com os seres humanos e com toda a criação” (DAp, 125). 

A cada pessoa que habita este planeta

Laudato Si’ é dirigido a cada pessoa. Isso nos coloca em estado de diálogo, em busca de uma conversa que nos una a todos (LS, 14) para buscar caminhos de libertação (LS, 64) que nos permitam proteger e cuidar da Casa que compartilhamos, onde a vida de todos é possível.

Ver, Julgar e Agir

O texto segue uma estrutura familiar: ver (capítulo 1), julgar (capítulos 2 a 4) e agir (capítulos 5 e 6).

Primeiro nos ajuda a perceber e compreender os graves danos e feridas que nossa maneira de produzir e consumir ocasiona sobre a Terra (Capítulo 1).

O capítulo 3 analisa a raiz desses gritos e denuncia como o modelo de desenvolvimento e crescimento predatório, confiante no progresso e nas respostas da tecnologia, não está reagindo com firmeza e continua a gerar pobreza e exclusão social. Os mais afetados pela degradação ambiental são os pobres e todas aquelas comunidades e povos que veem seus territórios explorados por um sistema econômico que leva a Natureza aos seus limites. Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio-ambiental (LS, 139), que nos questiona.

Francisco nos pede para promover uma Ecologia Integral (Capítulo 4), que permita “a honestidade de pôr em questão modelos de desenvolvimento, produção e consumo” (LS, 138) e contemple a integralidade da relação entre a família humana e toda a Criação. Nos Capítulos 5 e 6 propõe caminhos de diálogo e mudanças de estilo de vida e sensibilidade, desde o nível mais pessoal e familiar até o nível comunitário e social.

Do domínio ao cuidado

Este é o grande passo que nos propõe. Nós crescemos pensando que éramos os dominadores da Mãe Terra (LS, 2). O sistema econômico capitalista se baseia na ideia da dominação da Natureza, que é relegada como um simples depósito de recursos naturais. Mesmo uma leitura desfocada da Criação tem levado alguns a defender que o papel do ser humano é dominar a Terra.

Diante disso, Francisco propõe uma releitura do Evangelho da Criação (Capítulo 2) para acolher e viver outra lógica totalmente diferente: a lógica do cuidado, do cultivo e da reciprocidade, sabendo que somos parte de um projeto maior, o projeto criador de Deus, do qual somos parte e corresponsáveis.

Três lentes

A proposta é ler a Laudato Si’ com três lentes diferentes. Primeiro, como fiéis, filhos de Deus Criador e Libertador. Segundo, como habitantes deste planeta. E terceiro, como habitantes da nossa cidade, do nosso país e do nosso “Abya Yala”.

A maioria dos Estados latino-americanos têm intensificado nos últimos anos seu compromisso com o crescimento econômico que se alimenta da exploração e extração de bens comuns (mineração, petróleo, agroindústria) e nós devemos tomar uma posição contra isso.

Espiritualidade encarnada e esperançosa

Finalmente, a Encíclica propõe possibilidades de transformação. A esperança é um grito que percorre todo o texto. O mundo é um mistério alegre (LS, 12), o desafio é grande, mas belo (LS, 15), o Criador não nos abandona (LS, 13), todos podemos colaborar como instrumentos de Deus (LS, 14), e é possível ampliar o nosso olhar (LS, 112).

A transformação necessária passa pelas mudanças no nosso estilo de vida e consumo, e por um desafio educacional que atinge todas as famílias, comunidades e povos; passa também por recuperar a capacidade da política, liberando-a da submissão às finanças e à tecnologia, e organizando-a a serviço do bem comum.

Luís Ventura é Leigo Missionário da Consolata (LMC).

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